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23 de abr. de 2019

Os Movimentos da Dança do Ventre

Uma das coisas que diferencia um estilo de dança do outro é o repertório de movimentos executados na dança em questão. Quando falamos de dança do ventre temos um repertório específico que abrange movimentos isolados do quadril, tronco, braços, cabeça. Muitas vezes estes mesmos movimentos se combinam harmonicamente entre si podendo também ser associados a deslocamentos, transferências de peso, mudanças de planos, passos e giros. Tudo isso resulta numa ampla gama de possibilidades o que é encantador e nos permite criar uma infinidade de variações.

Entretanto, a dança do ventre é um produto originário de danças femininas étnicas provenientes basicamente do mundo árabe e regiões próximas, ou seja, é uma dança que tem todo um contexto cultural no qual se encontra inserida e que os movimentos realizados precisam estar de acordo com este contexto. É de suma importância também o estudo dos ritmos e da música oriental, que é uma música cujo formato e características são diferentes da música ocidental.
Na cultura oriental música e dança são intrinsecamente ligados, sendo assim, para cada estilo musical e conjunto de ritmos teremos movimentos que são adequados para uma correta leitura musical, por isso não basta estudar apenas os movimentos e saber executá-los impecavelmente, é preciso estudar toda a questão cultural e musical que envolve o universo desta arte.

Mas o foco deste texto é uma conversa sobre os movimentos de base da dança do ventre e que, infelizmente, cada vez mais têm sido deixado de lado para dar lugar a movimentos importados de outras linguagens de dança. Então gostaria de colocar aqui neste artigo como eu elenco, classifico e organizo os movimentos que são típicos da dança oriental solo improvisada feminina. Ou seja, os movimentos de base desta dança tão linda e que nos traz tantos benefícios por proporcionar uma harmonização dos nossos centros energéticos, movimentos que massageiam e irrigam nossos órgãos internos, que modelam o nosso corpo e que nos inundam do prazer de ser mulher! Vamos resgatar estes movimentos que são a energia do feminino na nossa dança pois ela é quem nutre de maneira plena esta arte tão valiosa.

Para fins didáticos eu separo os movimentos da dança do ventre em 4 grandes grupos:
1) Os cadenciados (quadril e tronco)
2) Os sinuosos (quadril, tronco, braços e cabeça)
3) Os precisos (quadril, tronco, braços e cabeça)
4) Os vibratórios (quadril e tronco)

OS CADENCIADOS
Os movimentos cadenciados são aqueles que acontecem necessariamente na pulsação rítmica, ou seja, não é possível executá-los sem base rítmica ou com uma base rítmica que não permita sua realização. A grande maioria destes movimentos acontecem nos ritmos quaternários (que possuem 4 tempos) e alguns em ritmos binários (2 tempos).
São movimentos que possuem uma ginga própria e geralmente podem ser acompanhados com palmas ou estalar de dedos.
Exemplos: básico egípcio, básico grego, twist...

OS SINUOSOS
Os movimentos sinuosos são aqueles que possuem formatos arredondados, formam curvas e desenhos como o símbolo do infinito (lemniscata), círculos, elipses, caracóis e esses (S).
Podem ser realizados seguindo o pulso rítmico ou não. São muito utilizados quando seguimos instrumentos de som contínuo como as flautas nay, o violino ou a voz humana.
Podemos inclusive mesclar os sinuosos com os cadenciados ou executar os sinuosos com cadencia marcando o pulso rítmico.
Exemplos: oitos e redondos, camelos, ondulações de braço, ondulações de ventre...

OS PRECISOS
Os movimentos precisos são aqueles que utilizamos para fazer marcações específicas quando solicitadas pela música, ou seja, quando houver uma marcação forte musical, faremos também esta marcação com o corpo.
Estas marcações podem ser realizadas com o quadril, ombro, peito, braço, cabeça, desde que seja na mesma intensidade da marcação da música. Para a realização destes movimentos geralmente recorremos às contrações musculares da parte do corpo requerida para realizar de forma precisa.
Exemplos: batida unilateral de quadril , batida pélvica, marcação com um dos ombros...

OS VIBRATÓRIOS
Mais conhecidos como shimies ou tremidos, são movimentos que requerem treino e consciência corporal. Podem ser efetuados com o tronco ou com o quadril, sendo que neste último temos um mundo de tipos de tremidos que poderão ser utilizados conforme leitura musical.
Os movimentos vibratórios são utilizados geralmente quando há um intensa aceleração musical, ou quando o instrumento musical faz um som trinado. Usados com muita frequência para leitura da percussão, principalmente nos solos percussivos ou para leitura de instrumentos de cordas como o alaúde e o qanoum, mas isto não é uma regra.
Exemplos: tremido de quadril, tremido pélvico, tremido de peito...

Como já disse antes, esta divisão é apenas para fins de organização didática, entretanto, conforme vamos aprendendo estes movimentos de forma isolada, treinando e incorporando, vamos também desenvolvendo a transição entre eles, a mescla e a desenvoltura, associando uns aos outros, juntamente com transferências de peso, deslocamento, giros, mudança de planos e transformando este vocabulário numa linguagem própria que desabrochará na sua dança.

Para reforçar este trabalho de resgate dos movimentos de base da dança oriental, estou disponibilizando um curso online totalmente gratuito no meu canal do YouTube.
Nas vídeo aulas eu explico cada movimento e pequenas sequências para ilustração e fixação destes. É um material de apoio para quem estuda dança do ventre poder treinar em casa e aperfeiçoar sua dança. Clique no link a seguir e acesse!!

DANÇA DO VENTRE ESSENCIAL DE A a Z - CURSO ONLINE GRATUITO

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Com muito carinho

Cris Antoniadis

28 de abr. de 2014

Música - Nebtidi Mnain El Hikaya

Toda estudante e bailarina de dança oriental que tem um comprometimento real com esta arte sabe o quanto estudar a música árabe é essencial para o estudo desta dança.

Gosto sempre de dizer que a dança na cultura oriental integra a música, não é algo a parte, são artes complementares e que toda bailarina de dança oriental deve dançar em uníssono com a música, deve fazer parte da orquestra, seria a materialização do som.

Sendo assim, é essencial quando escolhemos uma música cantada saber sobre a letra da música. Entender a poesia do canto nos permite uma entrega maior da alma e uma segurança que nos proporciona liberdade de expressão.

Quando escolhi a música Nebtidi Mnain El Hikaya para dançar no 4º aniversário do Pandora Danças, dia 01/02/2014, tinha uma certa noção do que a música dizia, mas minha escolha foi mais baseada pela sua beleza melódica e por ser uma música que me toca bastante. Existe uma versão grega para esta música chamada "Ta Mavra Matia Sou" (Seus Olhos Negros), que ouço desde muito pequena, mas depois descobri que a original era árabe, interpretada pelo famoso cantor egípcio Abdo Halim Hafez, e muito mais linda e completa (sou grega fanática, mas não sou sem noção, kkkk).

Então fui atrás do que o poema da música dizia, e me surpreendi com a beleza do seu significado e com o tanto que aquele significado simbolizava para mim e representava a minha relação e história com a dança. Me emocione muito, e então optei em não ensaiar a dança, apenas ouvir muito a música, passando a letra várias vezes até que ela fizesse parte de mim, e assim fui eu finalizar a festa de aniversário da minha escola, com uma sensação de plenitude e conquista em meu coração.

Minha Dança - https://www.youtube.com/watch?v=OnFNvYP06ZM

Segue a letra da música, em árabe para vcs acompanharem o cantor, e também sua tradução, pela qual devo agradecer imensamente ao meu marido e músico Sami Bordokan que me auxiliou.
Posto também o vídeo da versão original da música. Embriaguem-se e orientem-se!!!!

NEBTIDI MNAIN EL HIKAYA - LETRA E TRADUÇÃO
Onde Começa a História

Laou Hakina, ya habib, nebtidi mnain el hikaya...
Se falássemos, meu amor, por onde começa a nossa história...

Nahna i´ssat hobina, hobina, leeha aktar min bidaya
o nosso amor, nosso amor, tem mais que um começo

Aishna feeha yama aishna, yama aishna
vivemos nela, quando a vivemos
Shoufna feeha yama shoufna, yama shoufna
e enxergamos nela o quanto enxergamos

Lakein misheena u kammena wishwar el hob us´sina
no entanto caminhamos pela estrada do amor e chegamos

Id dounia ma edert taanitna witfar´a beina wit baid´na
o mundo não conseguiu nos contrariar e nem nos separar

Taala, taala, taala win ul i dunia, ana u inta, izzai idirna
venha, venha, venha, e diremos ao mundo, eu e você, como conseguimos

Ni baid an aei azeb, wi naish alla tul ahbeb
nos distanciamos de qualquer sofrimento, e seguimos vivendo para sempre como amantes

Nahdum farhetna, farhetna, farhetna sawa
vamos assegurar nossa felicidade
win khale el hob shabbab
e manter nosso amor sempre jovem



Até mais!!!


14 de ago. de 2013

Dança do Ventre - A Beleza do Simples

A Dança do Ventre hoje conquistou todas as partes do mundo, e é executada por mulheres de todas as idades e etnias. Isso é maravilhoso, entretanto se quisermos ser fiéis à dança do ventre como tradição da cultura árabe precisamos tomar muito cuidado com o efeito “telefone sem fio”.

Sou uma apaixonada por esta arte e dedico muitas horas assistindo vídeos de bailarinas de diversas regiões do mundo e venho percebendo que cada vez mais esta dança tem se distanciado de sua essência. Cada vez mais a preocupação das bailarinas é em impressionar o público com sua qualidade técnica, agilidade, movimentos inusitados e beleza física. Muitas vezes observamos movimentos, passos e elementos que nunca fizeram parte da cultura árabe.


Sei que a arte não é estática, que a arte evolui, que cada bailarina pode e deve colocar a sua personalidade em sua dança. Sei que há uma grande diferença entre uma dança cênica e uma dança “feita em casa”, mas se começarmos a nos distanciar da essência da dança oriental, daí simplesmente deixa de ser...

E o que é essa essência?

Vou fazer uma analogia: A HISTÓRIA DO FEIJÃO

“Sabemos que o arroz com feijão é o prato que mais representa o povo brasileiro. Imagine então a seguinte situação:
Você aprende com sua mãe e avó como fazer o feijão. Você aprende que precisa usar o feijão carioca ou o jalo para fazer este prato típico. Aprende que é preciso deixa-lo de molho por algum tempo para poder cozinha-lo. E o principal, aprende que para temperá-lo basta sal e alho, e se quiser pode adicionar cebola e toucinho. O arroz deve ser o branco, também temperado com sal e cebola. Mas que todos estes simples ingredientes, feitos e adicionados na 
proporção e ordem certa vão proporcionar um prato de sabor maravilhoso e muito tradicional do Brasil.


Um chef de cozinha francês tem a oportunidade de experimentar esta receita, e resolve colocar no cardápio de seu restaurante na França. Mas ele acha muito simples, e na verdade, ele nem sabe muito bem todos os passos do processo pois ele só experimentou, mas adorou e quer muito fazer. Então ele compra um feijão na França que não é o carioquinha ou jalo pois lá não se encontra este tipo (isto é uma ficção, eu não sei se existe ou não Ok). Daí ele resolve incrementar o prato, ao invés do arroz branco, ele prepara um arroz tipo “a grega” e no feijão ele adiciona outros temperos, mostarda, salsinha, tomilho e pimenta rosa. Ele percebe que se deixar o feijão com caldo, a apresentação do prato não fica tão bonita, então ele deixa o feijão mais seco, e para enfeitar a iguaria e dar um toque especial ele coloca como acompanhamento cogumelos.
O prato faz um baita sucesso, o restaurante fica famoso por ter um prato brasileiro no cardápio.
Você vai morar na França e fica com saudade de comer feijão, daí as pessoas te indicam o tal restaurante. Você fica empolgadíssima, vai lá e pede o prato, e então, a decepção!! Você gostou da comida, o prato era gostoso, interessante, diferente, mas definitivamente NÃO ERA O FEIJÃO BRASILEIRO!!!”

Como você se sente? Frustrada, enganada, chateada, enfim cada pessoa vai reagir de uma forma, mas o importante é que você sabe que aquele prato não representa sua cultura nem suas tradições.

Quero apontar várias coisas neste texto:
1)      Se você não quer fazer da forma tradicional, tudo bem, só não venda seu produto como se fosse;
2)      Se você quer fazer o tradicional, se você quer aprender a essência da dança, beba da fonte,
3)      Ser simples não é ser ruim, ser simples não é fácil, ser simples tem suas qualidades, ser simples não é ser pouco,
4)      Os passos e movimentos tradicionais da dança do ventre não são muitos, mas saber coloca-los na hora certa, com a dinâmica certa, com a ginga certa é o mais importante, completamente conectada e entregue a música, aí está a grande questão. Ao invés de se dedicar um tempão para aprender o “passo da moda”, dedique-se mais em pesquisar sobre a cultura e a música oriental, mas sempre de fontes fidedignas, prefira sempre os originais, mas lembre-se, nem todo brasileiro sabe fazer feijão.

Muita gente diz que minha dança é simples, e honestamente não me ofendo com isso, pois esta é a essência da dança oriental. Eu como bailarina de dança oriental tenho que me preocupar em traduzir em meu corpo a música de forma prazerosa e de forma que o público possa entender. A impressão de ser simples se deve pelo fato de ser completamente entendível!! Você entendeu a minha dança completamente, ótimo, esta era minha intenção, é sinal que eu consegui te passar uma mensagem claramente, e com muita técnica sim, pois senão a geometria e harmonia dos meus movimentos não seriam perceptíveis.
A partir do momento que o público não consegue acompanhar o que eu faço e que eu tenho que pensar para fazer, deixou de ser dança oriental, pois quando isso acontece há uma desconexão do público e da bailarina com a música, e dança e música na cultura oriental é uma coisa única, somos um uníssono, todos os instrumentos produzem um único som, não há harmônicos na música árabe, um dos pilares da música árabe é sua forma melódica e o meu corpo deve ser esta melodia de forma plena.
Eu como bailarina devo ser a música, sou um instrumento a mais na orquestra, a música me rege, se não há mudança de frase musical, não há mudança de passos e movimentos, se não há floreios na melodia, não haverá floreios em meu corpo. Eu devo seguir a música em tudo, em suas intenções, dinâmicas, energia, e isto não quer dizer seguir cada “plin” do qanoum, isto quer dizer estar entregue totalmente deixando o som reverberar no corpo.
A música árabe é cíclica, sendo assim a dança também deve ser, ou seja, não há nada de errado em repetir o mesmo movimento se a música o solicita. Esta circularidade é o que proporciona o êxtase, o prazer, a viagem do público em seu corpo, se mudarmos de movimento a cada segundo, não se estabelece a conexão.
Foto: Flávia Pastorelli/ Bailarina: Cristina Antoniadis

A essência da dança oriental está no prazer sentido pela bailarina e compartilhado com o público, e para haver prazer é preciso que o corpo esteja relaxado e desconectado com o pensamento de querer impressionar!
Quanto mais dançamos a mesma música, mais íntima dela nos tornamos, e mais podemos explorar de forma natural suas minúcias.
Portanto, se você quer dançar com estilo realmente árabe, pense em tudo isso!! Abaixo, alguns vídeos para ilustrar e frases para refletir.

“A Simplicidade é o último grau da sofisticação” – Leonardo da Vinci

“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho” – Clarice Lispector

“O assunto mais importante do mundo pode ser simplificado até o ponto em que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. Isso é, ou deveria ser, a mais elevada forma de arte.” – Charles Chaplin

“A Simplicidade é o último degrau da sabedoria.” – Khalil Gibran


Serena Ramzy

Cristina Antoniadis

Fifi Abdo

8 de out. de 2012

"Dança do Ventre Turca"


Vem aí, a nova novela da Globo: Salve Jorge, cenário Brasil e Turquia, com todos os ingredientes que a autora Glória Peres usa em suas receitas, e um deles, a dança.

O alvoroço no mundo da dança do ventre já começa, as alunas já começam a questionar como é o estilo turco de dança do ventre, quais são as diferenças e as características marcantes.
Cléo Pires e a "Dança com 7 Véus"

Uma certa angústia já se inicia, sabemos que tudo que se relaciona a nossa amada dança quando vai parar na grande mídia, geralmente, é de forma distorcida, que temos um trabalho redobrado para desmistificar e desfazer os estereótipos criados, mas vamos pensar pelo lado bom da coisa, não é sempre que ganhamos uma divulgação gratuita, e que apesar de muita gente começar a fazer aulas por farra do momento (como ocorreu na época do “Clone”), muitas se apaixonam e acabam levando a sério, ficando e se transformando em lindas bailarinas!

Entretanto precisamos estar preparadas para esta avalanche, e pensando nisso resolvi compartilhar o que eu conheço e posso sobre este assunto.


E antes que perguntem ou indaguem o por que de eu ter algum conhecimento sobre o assunto, já me anteciparei: conheço o assunto pois sou de origem grega e estudo as danças gregas desde os 7 anos de idade!! E então virá a grande questão: O que as danças gregas tem haver com isso??? daí eu respondo: quase TUDOOOOOO.

Vamos entender isso!


Gengis Khan
Para entendermos os aspectos da dança do ventre turca, precisamos primeiro entender o que é a Turquia. A Turquia é um país, nação, recente, nomeada república Turca em 1922. Sua origem deriva do Império Otomano. Os turcos originais eram povos de essência guerreira, vindos do Turcomenistão, norte da Mongólia (lembrem das histórias de Gengis Khan), e após processos de conquistas territoriais e invasões que iniciaram por volta do século XI, principalmente na região da Anatólia (território atual da Turquia que até então era o Império Bizantino herdeiro da civilização helênica) se deu origem aos turcos otomanos (islâmicos).


Após a tomada de Constantinopla em 1453 (atual Istambul), o Império Otomano (turcos otomanos) teve seu apogeu entre os séculos XV e o XVIII, e sua área territorial de dominação política e militar abrangia o sudeste europeu, Ásia Menor, países árabes, costa mediterrânea do norte da África e costa do mar Cáspio.

Até a constituição do Estado Turco em 1922, a região da Anatólia era fortemente povoada por gregos (helênicos), os quais ali estavam desde a antiguidade (1200 ac) e tinham suas culturas fortemente estabelecidas. Por receios políticos e religiosos, após este período iniciou nesta região uma forte perseguição aos gregos (que eram cristãos ortodoxos), e iniciaram grandes genocídios e massacres. Estima-se que foram expulsos a partir de então cerca de 2.000.000 (dois milhões) de gregos (minha avó paterna foi um deles), e os que permaneceram na região foram obrigados a se converter ao islamismo e mudaram seus nomes para não morrerem ou serem perseguidos, entretanto permaneceram com suas tradições e costumes.

Santa Sofia (Istambul/Turquia) - Catedral Grega Bizantina, construída
no século VI, transformada em mesquita pelos turcos otomanos em
1453 até 1931. Em 1935 transformou-se em museu. Atrás o estreito de
Bósforo,canal que separa a Ásia da Europa.

A Turquia sucedeu o Império Otomano, que por sua vez sucedeu o apogeu cultural do Império Árabe, um período de grande produção cultural chamado a idade do ouro, ocorrido entre os séculos VII e XII, e também o Império Bizantino, cuja cultura era a intersecção entre as culturas gregas da antiguidade clássica e as culturas orientais. Aspectos da cultura musical e da dança destes povos foram absorvidos pelos turcos e esse grande caldeirão que inclui em boa parte a cultura helênica e a árabe e também aspectos das culturas persas e mongóis deram origem ao que denominamos hoje de cultura turca.

Acampamento cigano na cidade de Esmirna/Turquia


Outro aspecto que influencia bastante a cultura turca atual é a forte concentração de ciganos (romani), provavelmente a maior do mundo estimada em cerca de 5.000.000, e assim como no Oriente Médio, são estes ciganos os grandes responsáveis pelas manifestações artísticas de música e dança nas tavernas, festas, casamentos e feiras de rua agregando a cultura local a suas tradições.



Após dito tudo isto, conseguimos vislumbrar o que seria a dança do ventre turca. Sabemos que quando os turcos ali chegaram esta dança já existia, ou seja, não é uma dança de origem turca, mas sim uma dança que foi absorvida e sofreu influências múltiplas.
Estátua grega encontrada em Esmirna
Dançarina velada

No estilo praticado pelas bailarinas turcas (que em sua maioria tem origem cigana pois há um grande preconceito em volta da dança assim como em todo o Oriente Médio), podemos observar muitos aspectos da dança do ventre libanesa e da dança do ventre grega, e alguma influência das danças persas e dos rituais sufis. Algumas bailarinas mesclam movimentos das danças ciganas e também de danças folclóricas, principalmente o karsilamas, que tem origem na Trácia (em breve postarei um artigo específico sobre esta dança).

Do estilo grego observamos que foi herdado, além dos ritmos (chiftetelis, karsilamas e outros), movimentos pélvicos, postura e eixo dos quadris a frente com um leve cambrê (que também aparece no estilo libanês), redondos e oitos horizontais grandes, cambrês exagerados, muito trabalho de chão e a forte presença dos snujs (zília) também presente entre os ciganos.

Do estilo libanês, os grandes deslocamentos e giros, a acentuação para cima dos movimentos (que também aparece no estilo grego) e nos shows “bellydance”, os trajes mais modernos e ousados bem como o uso de sapatos de salto.

Do cigano podemos observar a manipulação das saias, os “puladinhos” (que também tem uma influência do karsilamas grego, que por sua vez tem influência cigana), os giros do tipo “helicóptero”, as acrobacias (queda turca, contorcionismos e equilibrismo) e muito de suas danças populares.

Das danças persas podemos notar os gestuais e influências nos trajes mais tradicionais (não para shows “bellydance”), e também o giro oriental o qual pode ser observado nos rituais sufis.

E da herança da sua tradição militar e guerreira, podemos observar uma grande eficiência técnica, precisão e bailarinos atléticos (principalmente nos grupos folclóricos), o que acredito ser uma das características mais marcantes da dança turca atual.

Enfim, percebam que estas influências e características são circulares e uma cultura influencia a outra e assim continua, e este intercâmbio é maravilhoso pois enriquece a nossa dança de maneira infinita.

Algo muito importante a salientar é que a dança do ventre para os turcos não é algo enraizado em suas tradições diárias assim como vemos a “raksa” nos países árabes, o “shaabi” e o “baladi” no Egito e o “tsiftetelis” na Grécia, ela é utilizada mais como show, algo para ser mostrado, atração de turistas do que como entretenimento local. Para elucidar melhor o que estou dizendo, transcrevo aqui uma das impressões que a bailarina Brysa Mahaila relata em seu blog ao retornar de sua viagem à Turquia:
“Os turcos vêem a dança do ventre apenas como um espetáculo de variedade. As bailarinas não se preocupam com a arte e a qualidade da dança, infelizmente lá a dança é vista como um show para divertir o público e não como uma arte de exaltação a sensibilidade e ao feminino.” Relata Brysa sobre os espetáculos de dança do ventre na Turquia.

Enfim, de qualquer forma existem bailarinas turcas maravilhosas, que são grande fonte de estudo e que podemos nos inspirar para conhecer um pouco mais deste estilo, segue um vídeo da minha preferida, Nesrin Topkapi:

 Outros aspectos culturais e curiosidades:
1)      Não confundam um árabe com um turco. Isso acontece muito no Brasil por conta das primeiras imigrações de povos árabes que chegavam com passaportes turcos devido ao período da dominação otomana. O turco fala o idioma turco, tem origem étnica diferente e possui tradições próprias.
2)      A palavra Istambul deriva do termo grego “I Poli”, ou seja “a cidade”. Assim era denominada coloquialmente pois era lá o centro comercial, artístico e cultural da região, ou seja, onde as coisas aconteciam e havia um intercâmbio cultural forte. Outra cidade muito importante para o desenvolvimento das artes é Esmirna, também um pólo cultural.
3)      Assim como a dança, a música turca também é um grande caldeirão de misturas culturais, mas os instrumentos utilizados são os mesmos da música árabe clássica (e grega também), o alaúde, o qanoun, a nay, o derbak e a presença do saz (uma espécie de bouzouki). A nomenclatura dos ritmos também é a mesma e a qualidade melódica da música oriental permanece (ou seja, uma música modal, e não tonal).
4)      O olho turco (amuleto), é um grande exemplo do intercâmbio cultural e absorção das culturas locais pelos turcos. Sua origem é egípcia (o olho de hórus) e foi adotado pelos gregos que começaram a utilizar um olho azul como amuleto para espantar “mau olhado”, nos países árabes também é costume utilizar uma pedra azul para este fim, e hoje faz parte da cultura turca.


Se você quiser saber mais sobre o “Tsiftetelis” (estilo grego de dança do ventre) e também entender um pouco melhor essa conversa cultural entre gregos e turcos, sugiro a leitura deste artigo: clique aqui

Enfim, espero ter contribuído para que a nossa classe de bailarinas e apaixonados pela dança oriental esteja mais preparada para a próxima avalanche.

Na época da novela “O Clone”, quem estava neste meio sabe bem do que eu estou falando quanto às distorções, mas também sabe que vinha muita aluna querendo fazer aula e perguntando:
“Eu vou dançar que nem a Jade (Giovana Antonelli)?, daí eu vou citar o que uma colega de profissão, a Juliana Leme, disse e que eu particularmente amei: “Não querida, vc não vai dançar que nem a Jade, vc vai dançar melhor!”

Informações sobre aulas e shows, acesse aqui
ou ligue: 11 97225-2672

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Um grande abraço!!
Até a próxima

18 de mai. de 2012

"Quero ficar velha logo..."

Nestes últimos dias me deparei com 3 momentos de 3 grandes artistas (Souhair Zaki, Glykeria e Fernanda Montenegro). Momentos estes que me fizeram refletir sobre a questão da idade.
Percebi que estas 3 diferentes e maravilhosas artistas, no esplendor da vida e da maturidade conseguiram superar a si mesmas e me surpreender ainda mais com o seu talento o qual eu já admirava.

O carisma e a sabedoria destas mulheres é algo que pegou dentro da minha alma, o que menininha nenhuma com corpinho e rostinho perfeito conseguiram fazer.

Refletindo sobre estas 3 mulheres incríveis, um pensamento não sai da minha cabeça, quero ficar incrível logo!!! Entretanto sei que isto vai demorar, pois é um longo processo, só com o passar dos anos é que vamos acumulando tanta bagagem a ponto de que ela começa a pesar tanto que sua distribuição torna-se inevitável, pois aquele que não distribui torna-se pesado e não consegue mais caminhar!
Podemos até nascer com um mega talento, mas a experiência de vida somada a este talento numa mente aberta faz coisas inacreditáveis, de beleza ímpar e sem artifícios. É um simples que representa o tudo!!

A grande bailarina Souhair Zaki, dançando, já com uma certa idade. Percebam quanta emoção é transmitida em cada movimento, a entrega, o prazer e o domínio total da cena.



Esta é a cantora grega Glykeria, no auge dos seus 64 anos estava em turnê pela América Latina, esta cena é a entrada dela no último show realizado em São Paulo, no dia 10/05/2012, o qual tive o imenso prazer de estar presente. Acompanho a carreira desta talentosa cantora que sempre teve uma linda voz, entretanto percebam como o seu timbre esta mais aveludado, mais trabalhado e carregado de emoções, sem contar o lindo "mawell" que ela executou no meio da música.



E aqui uma maravilhosa entrevista, um banquete de sabedoria, deste talento indiscutível que é a Fernanda Montenegro. Palavras que servem para qualquer artista, e que para nós bailarinas é cabem como uma luva!


Outras maravilhosas artistas que me impressionam em sua maturidade:

Tamalyn Dallal


Nadia Gamal, aos 60 anos



Nossa, não vejo a hora de ficar velha, mas quero ficar assim, carregada em emoções e sabedoria!!!
E da próxima vez que alguém falar que está velho para dançar ou que você é velha para dançar, lembre-se deste post!!!
bjssssss





23 de abr. de 2012

Impressões sobre o Mercado Persa 2012


Nos dias 13, 14 e 15/04 tivemos aqui na cidade de São Paulo/Brasil, o maior festival de danças árabes da América Latina, o Mercado Persa, idealizado pela mestra Samira e organizado por Shalimar Mattar, este festival que começou pequeno e há 14 anos atrás atinge hoje uma dimensão gigantesca e alcança milhares de pessoas entre as que o acompanham fisicamente e também através das redes sociais, youtube, blogs e etc.

Neste ano não consegui participar do festival por razões diversas e pessoais, mas não pude deixar de dar uma “escapadinha” e prestigiar o evento na sexta e no sábado. Assisti algumas apresentações, acompanhei alguns concursos e presenciei algumas situações e no final das contas, também é legal ver “de fora” pois pude avaliar tudo por um outro olhar.

Foi muito prazeroso assistir o show de abertura na sexta-feira a noite, no qual o tema foi a história da dança do ventre no Brasil. Senti uma emoção muito forte em reviver momentos que fizeram parte da minha vida, a reprodução de uma “taverna” onde tinham apresentações de bailarinas relembraram a minha infância nos restaurantes e festas gregas e árabes, quando ninguém achava estranho colocar uma bailarina em cima da mesa e presenteá-la com dinheiro. Rever também as primeiras gerações de bailarinas da Khan El Khalili, como Aisha Almee e Munira Magharib no palco, com modelitos “a moda antiga” e dançando “a moda antiga” também me emocionaram e me relembraram meus momentos frequentando a Casa de Chá e depois as primeiras versões das Noites no Harém. Rever Cláudia Cenci no palco também foi maravilhoso, relembrei da época do Clone e toda loucura que vivemos nesta fase com milhares de apresentações por dia, dançando de um tudo para todos.

Muitas coisas lindas e interessantes fizeram minhas pupilas brilharem. Assistir Saida dançar ao vivo é avassalador, a energia da Samira e o sorriso da Shalimar são sempre contagiantes, e não poderia deixar de citar a linda apresentação de dabke que Anthar Lacerda me proporcionou, um colírio!

A quantidade de roupas lindas nos palcos, nos desfiles, à venda nas barracas, uma incrível variedade de assessórios também fazem do evento um sucesso. Fiquei realmente feliz em perceber a volta dos figurinos de dança do ventre num estilo mais tradicional, bem como deste resgate em muitas das apresentações e resultados de concursos.

A culinária também não deixa a desejar, um falafel para árabe nenhum botar defeito me deu energia para um dia inteiro. E sem contar o prazer de reencontrar pessoas queridas, conhecer profissionais diferentes e ver como cresceu o número de praticantes da nossa tão amada dança do ventre.

Entretanto, algo me incomodou e me deixou muito chateada e me senti na obrigação de dizer. Mesmo com toda a acessibilidade à informação que as pessoas tem hoje em dia a respeito das danças orientais, a quantidade de grupos que distorceram tradições e folclores foi decepcionante. Alguns grupos não tem a mínima noção do que é uma dança folclórica e do que não é, da questão dos trajes, das músicas, dos movimentos e passos. Neste ponto, gostaria de deixar um alerta aos grupos que se inscrevem como folclóricos. Estudem, pesquisem, façam aulas com quem entende, leiam o regulamento do festival, e só depois concebam um trabalho para apresentar. É preciso ter um pouco de respeito com o público, seja este leigo ou não.
Veja bem, o leigo assumirá como verdade a sua proposta, e o não leigo se sentirá ultrajado e agredido (foi como me senti), não é o que você quer né!
Um bom começo é a definição de folclore pelo Aurélio (dicionário) – folclore é o conjunto de poemas, canções, danças, tradições e lendas de uma determinada região.
Outro conceito primordial é o de que estas danças geralmente nascem de situações do cotidiano, são uma manifestação do comportamento cultural, histórico e social dos indivíduos e expressam uma tradição viva e popular.
É claro que quando levamos um folclore para o palco estamos adaptando a tradição para um espaço cênico, mas há de se ter muito cuidado para não distorcer ou ridicularizar. Sinceramente achei que o Brasil já tinha superado isto, daí fiquei realmente triste.

Outra questão que me deixou chateada foi a falta de educação do público. Precisamos sempre respeitar o artista que está no palco e também àqueles que o estão prestigiando. Não é elegante passar na frente, falar alto ou atrapalhar a quem esta assistindo. O mínimo é esperar o pequeno intervalo entre uma dança e outra para passar, afinal, não é tanto tempo assim né!

De qualquer forma, é sempre bom presenciar um evento como este com a cara do Brasil, pois o que eu mais admiro no Mercado Persa é a liberdade de expressão do artista. Ou seja, só não dança quem não quer, pois são muitas as categorias, e para quem não quer concorrer, há sempre a possibilidade de participar das mostras, tem espaço para todos! E podem já reservar o meu, pois em 2013 estarei lá, eu e a Pandora Cia de Danças!!

Apreciem a linda apresentação da vencedora do concurso Solo Profissional Star
Dança do Ventre clássica, impecável, sem invencionices!




Bjsssss
Cristina Antoniadis

12 de mar. de 2012

Entrevista com Cristina Antoniadis - por Ísis Zahara

Olá!!

Quero compartilhar com vocês esta especial entrevista que cedi para o blog da bailarina Ísis Zahara. Além de mencionar alguns detalhes de como iniciei nas danças orientais, falo um pouquinho também sobre a dança do ventre no estilo grego e algumas curiosidades!

Espero que gostem!

Clique aqui para ler a entrevista.

13 de fev. de 2012

Benefícios da Dança – Aquele que ninguém diz


É muito comum lermos uma série de textos, artigos e reportagens relatando os inúmeros benefícios da Dança do Ventre. Benefícios ao corpo físico que melhoram nossa musculatura, flexibilidade, funcionamento do organismo, queima de calorias e etc, benefícios no plano mental relatando a diminuição do stress, e melhora da coordenação motora. Benefício no plano emocional, ligados a auto estima, o amor próprio, a TPM e a plenitude de ser mulher

A lista destes benefícios é bem grande, mas pela minha experiência na prática da dança, nestes últimos 20 anos o maior e melhor benefício que a dança do ventre me trouxe foram as amizades.

Tive amigas na escola, faculdade, empregos, amizades muito boas mas que se foram com a distância, não que deixaram de ser amigas, mas perdemos o contato. Entretanto as amigas que fiz na dança, nunca mais se foram, mesmo distantes estão sempre perto, é como se tivéssemos realmente um pacto de sangue, o que me fez pensar um tanto sobre o assunto. Então concluí que a dança traz este benefício também, pois na dança encontramos pessoas que realmente tem a mesma sintonia, a mesma filosofia de vida, afinidades verdadeiras, afinidades de alma.

Na escola, no trabalho e na família também temos amizades, mas na dança as amizades se tornam mais profundas pois dividimos não só uma sala de aula ou um palco, dividimos nossas emoções, nossos medos, nossas fragilidades e nossas virtudes de forma aberta e clara.

Quando alguém procura uma aula de dança do ventre, raramente procura somente por achar a dança bonita ou para querer fazer um exercício físico. Mesmo que inconscientemente, a mulher que quer aprender dança do ventre quer também saber mais sobre ser mulher, quer resgatar valores femininos de um passado muito remoto no qual nossas civilizações eram matriarcais, quer resgatar o elo feminino e a união que nossas ancestrais possuíam e que hoje em dia é tão raro, quer entender as ansiedades da sua alma e encontra no contexto das aulas e da dança mulheres que tem estas mesmas ambições.

Quantas vezes não escutamos uma colega dizer que a amizade entre homens é mais sincera, ou que uma colega quis sabotar outra para lhe roubar um namorado, ou cargo ou mesmo status social. Eu sinceramente não acredito que a mulher seja este ser ardiloso e cheio de maldade e que vivem isoladamente, acredito somente que mulheres que agem desta forma o fazem por não terem encontrado um equilíbrio no seu eu interior, assim como alguns homens também agem desta forma . As mulheres da atualidade precisam perceber em primeiro lugar que são mulheres, são diferentes dos homens e não precisam agir ou pensar como eles.

Nas aulas de dança do ventre (pelo menos as que ministro e as que frequentei) isso fica bem claro, somos diferentes, podemos nos unir, podemos ter emoções, podemos rir e chorar ,podemos errar, podemos ter quilos a mais ou a menos, podemos ter prazer e nos aceitar da forma que somos, nos sentir bonita, elogiar a outra, ser nova ou velha, ser branca, oriental ou negra. Podemos sentir, ficar descalças e perceber a energia que vem da terra e invade nossos ventres, podemos ser livres e demonstrar nossos sentimentos de verdade, ser cúmplices das nossas fraquezas e testemunhas das nossas glórias, e assim vamos criando um elo com cada companheira de dança que é difícil de romper, vai nascendo um vínculo construído com grandes e fortes alicerces, um vínculo baseado em verdades profundas das nossas almas, um vínculo o qual chamamos de  AMIZADE!

Com muita emoção e recém chegada de Natal/BR onde reencontrei amigas, irmãs de alma, trazidas para minha vida pela dança, dedico este texto para Regina Silva, Vanessa Abílio e Denise Mussio que transformaram esta viagem num encontro inesquecível, e também a Claúdia Parolin e Naira Gios que, mesmo fisicamente ausentes, estavam muito presentes nas nossas lembranças.

Dedico também a todas as professoras e alunas do Pandora Espaço de Danças, que transformam a minha diária labuta em fonte de imensos prazeres e realizações como ser humano!

Uma linda semana a todas!!
Minhas amadas amigas no dia do meu casamento - Amo vocês

18 de jun. de 2010

Greek Belly Dance - Tsiftetelis









Neste texto gostaria de explicar um pouco sobre o estilo grego de Dança do Ventre, mais conhecido por Tsiftetelis ou Chifteteli (em turco), há tempos tenho pesquisado, estudado e observado mas ainda sei pouco sobre o assunto, entretanto gostaria de compartilhar este pouco.
Muito se discute sobre a origem desta dança, e é bem curioso o fato dos próprios gregos afirmarem e desconhecerem que sua origem não é turca, e sim grega, na verdade helênica (cultura grega oriental)! Isso se deve ao fato de que esta dança é muito antiga, provêm de rituais femininos e cultos as deusas da antiguidade, entretanto foi na Ásia Menor (Mikra Assia) que ela se desenvolveu mais parecidamente com o que conhecemos hoje. Esta região pertenceu à Grécia até o ano de 1453, quando os turcos otomanos chegaram e dominaram também boa parte do Oriente Médio, Grécia Européia e Asiática e Leste Europeu.
Vejam bem, os turcos são originários de tribos do Turcomenistão e região do norte da Mongólia, eram povos bárbaros e guerreiros e assimilaram a cultura dos locais onde passaram. Toda a região que hoje pertence ao litoral da Turquia, era Grécia e muitos gregos ali viveram até sua expulsão no século XX, ou seja, quando os turcos ali chegaram, já havia uma cultura fortemente estabelecida há cerca de 6.500 anos.
Neste filme, que trata da região de Smirna (atual Turquia) em 1922, podemos observar uma taverna onde se toca música grega e podemos notar a presença de gregos, europeus e turcos. Percebam que os instrumentos musicais clássicos gregos são os mesmos que os árabes (alaúde, kanun, daff, mazar, violino), que fumam arguile (ou narguilê em grego) e dançam o tsiftetelis!



Minha avó paterna era de Smirna, sua família foi expulsa pelos turcos pois eles se recusaram a se islamizar (o grego é cristão ortodoxo quase fanático), e eles fugiram para o Egito. Eles falavam o grego, seus costumes e tradições eram gregos, sua culinária, trejeitos e etc. A expulsão dos gregos desta região foi tamanha que hoje em Athenas existe uma bairro chamado Nea Smirna (Nova Esmirna), a maioria proveniente desta região, e que sofreram muita discriminação ao chegarem na Grécia por serem tratados como Turcos (daí o equívoco em se dizer que o tsifteteli e muitas outras coisas da cultura helênica são turcos). Um filme belíssimo que recomendo e trata exatamente deste assunto chama-se “O Tempero da Vida” (Politiki Kouzina).
A palavra tsiftetelis deriva da palavra do grego arcaico “diphuatila” que significa 2 cordas. Originalmente, este estilo de música era tocado num percussor de um instrumento chamado baglamá, que possuía apenas 2 cordas.
O nome da dança coincide com nome do estilo musical e com o nome do ritmo, o qual descrevo a seguir, e pode ser tocado tanto de forma lenta como mais acelerada:

DUM - TAK – TAK DUM – TAK

O estilo grego de Dança Oriental se difere do egípcio e do árabe em diversos aspectos. O principal deles está na ênfase em movimentos pélvicos e na postura da bailarina que executa a dança quase inteira numa posição com um leve cambrê e a pélvis a frente. Os oitos e redondos são muito comuns também e são executados com um “arrastamento” dos pés com os calcanhares bem apoiados no chão. Outra característica muito comum é a acentuação das batidas quase sempre para cima e também a dança executada no chão.
O próximo vídeo demonstra uma jovem grega dançando o tsiftetelis despretensiosamente:



Hoje em dia, é muito comum na Grécia tocar o tsiftetelis em casas noturnas, festas e eventos, e todos dançam, principalmente na formação de casal. O instrumento musical tradicional mais utilizado atualmente é o bouzouki, entretanto notamos que com a modernização e massificação cultural, instrumentos como o kanonis (kanum), tumbeleki (derback), daff, violino e clarino foram substituídos por teclados, baterias, guitarras, o que é lamentável e descaracteriza totalmente a cultura helênica!
Neste próximo vídeo, exemplifico um dos estilos mais tradicionais de tsiftetelis, que consiste numa improvisação de bouzouki:



A troca cultural entre gregos e árabes é também algo milenar, os gregos sempre tiveram grande fascínio pelo Oriente, tanto que levou Alexandre, o Grande até a Índia, e é muito comum nas letras de músicas gregas serem mencionadas as belezas e riquezas do povo árabe. Desde a antiguidade a Grécia importava cantoras do Egito pois eram consideradas as melhores vozes, faziam comércio com os Fenícios e adotaram seu alfabeto, estudavam o povo persa, podemos dizer que naquela época havia uma real globalização cultural e o que conhecemos hoje por cultura helênica, na verdade é a intersecção da cultura grega clássica com a cultura oriental.
Este intercâmbio acontece até os dias atuais, um grande exemplo disto é a música “Ya Ghayeb” ou “Posso Mou Lipis”, foi um grande sucesso pop.



Outro aspecto muito interessante que me deparei em minhas pesquisas, são as inúmeras estátuas e figuras da antiguidade, datando de aproximadamente 300a.c com bailarinas utilizando véus. Os snujs ou sagats(zíia em grego) também tem origem grega, de um período anterior ao da antiguidade clássica, chamada era do bronze, e eram utilizados um tanto diferente, nos polegares e indicadores, e não no dedo médio com nos dias atuais.
No próximo vídeo eu estou executando o Tsiftetelis de uma forma mais cênica, a música escolhida é do cantor Giorgos Dallaras, chama-se “Me teliosses”:



Outros Vídeos para apreciação:

Uma típica festa de casamento grego:


Bailarina grega radicada na Alemanha:


Outro de Smirna 1922:


Bom, vou ficar por aqui, abçssss

17 de mar. de 2010

A Dança na Música Árabe

A Dança Oriental, Raks El Sharki ou mesmo Dança do Ventre como é mais conhecida aqui no Brasil é uma dança fascinante, não só pelos movimentos complexos que exigem bastante consciência corporal e treino mas também pela sua integridade com a música.

Na filosofia oriental, dança e música é uma coisa só, não existe no universo música sem dança e vice e versa. Na música árabe os instrumentos tocam uma melodia em uníssono e a dança é mais um elemento que integra ao todo formando uma única arte.

Uma das principais características das artes árabes é a riqueza de ornamentos e com a música e a dança não é diferente, são numerosas em detalhes, são rebuscadas e possuem uma forte conexão com as emoções e com a alma.

Uma das características que mais diferencia a música oriental da ocidental são os modos, na música oriental existem mais de 400 escalas e isso é possível devido a não limitação de notas musicais sendo muito comum a utilização de quartos de tom. A essas escalas se dá o nome de “maqan” e para cada “maqan” podemos associar diferentes sensações, ou seja, existem “maqans” que enchem nossos corações de alegria, outros de tristeza, outros de nostalgia, espiritualidade, força, paixão, sono, euforia... Outra característica já citada anteriormente é a melodia tocada em uníssono por todos os instrumentos. Não podemos deixar de citar também as “taksins”, que são improvisos de cada instrumento dentro de um determinado “maqan” com ou sem base rítmica. E por falar em ritmo, não podemos deixar de citá-los pois são inúmeros podendo uma só música contemplar vários ritmos diferentes. São muitos detalhes além destes que vão moldar a música árabe, mas acredito que estes sejam os principais.

A Dança Oriental segue também pelo mesmo caminho, e uma das características mais interessantes é sua conexão o tempo todo com a música, acompanhando cada nota, cada ornamento e humor. Na dança precisamos nos entregar para música tal como uma mulher se entrega ao seu amado, precisamos respirá-la, senti-la, amá-la e nos envolver com ela explodindo toda esta emoção no movimento do corpo.

Uma adequada leitura dos ritmos e maqans também são essenciais para uma boa dança, cada ritmo tem uma contagem, ginga e cadência própria que serão traduzidas nos passos da dança, e a colocação destes passos também depende, além do ritmo, da instrumentação utilizada e do “maqan”. Um exemplo clássico é o ritmo “Said”, não é porque a música entrou neste ritmo que existe uma necessidade de usar passos folclóricos, outros aspectos precisam ser observados, principalmente os instrumentos e o contexto da dança. Existem também passos que não “casam” com determinados ritmos, por exemplo, o básico egípcio não “casa” com o Laff (Malfouf), apesar de “dar para fazer”, não é apropriado pois o passo completo se dá em 4 tempos e o ritmo Laff é binário. Além da questão técnica e matemática, um aspecto que eu costumo utilizar muito nos meus estudos de passos e ritmos é o histórico de um determinado ritmo, de qual região provém, para quais rituais era tocado, em quais culturas podemos encontrá-lo, e daí vou puxando o fio da meada que muitas vezes se enrosca, mas sempre acabo descobrindo coisas fascinantes.

Enfim, o estudo da dança e da música oriental é infindável, porém nos proporciona momentos intensos de prazer e emoção, pois nos remete a uma busca das nossas próprias origens como seres divinos que somos, e nos possibilita entender o que muitas vezes não conseguimos entender com a razão, mas sim com as nossas almas, basta fechar os olhos e sentir.

Para quem quiser saber mais, ofereceremos dois cursos em Maio/2010 relacionados ao assunto:

23/05 (domingo) das 15h as 19h – “Um Encontro com a Música Árabe” com Sami Bordokan
História da Música Árabe, sua estrutura, instrumentos, ritmos e escalas. Destinado a praticantes da dança do ventre, músicos e interessados na cultura e música árabe.

30/05 (domingo) das 15h as 19h – “A Dança na Música Árabe” com Sami Bordokan e Cristina Antoniadis
Reconhecimento e leitura de taksins e principais ritmos da música oriental. Destinado a praticantes da Dança do Ventre.

Informações – (11)3867-1738 ou 7274-9040

3 de jun. de 2009

A Dança do Ventre e seus Estilos

Não temos muitos registros históricos sobre a dança do ventre, mas uma coisa é fato e indiscutível, é uma dança de essência feminina e muito antiga, e claro, devido a esta última característica passou por inúmeras transformações.

Venho há muito tempo sentindo uma grande necessidade de abordar esse assunto, isso porque observo muitas profissionais da área, tanto no Brasil como no exterior, usarem nomenclaturas e rótulos para classificarem sua dança como sendo melhor. É comum depararmos com frases tipo “a verdadeira”, “autêntica”, “pura”, “original”...

Antes de escrever qualquer coisa quero deixar bem claro que só existem dois tipos de dança do ventre: a boa e a ruim. E não precisa ser nenhum expert no assunto para saber diferenciar.

Dança ruim não falta, mas ainda bem que temos muita dança boa!!

Pra mim, dança ruim é aquela fora do ritmo e da música, sem sentimento, sem personalidade, fora do contexto.

E dança boa, ao contrário do que tenho observado neste meio, NÃO É conseguir fazer movimentos “cabeludos” e dificílimos, e sim tornar sua dança juntamente com a música uma só coisa, dançar com expressão, vida, paixão, delicadeza e todas as suas emoções, é conseguir tocar no outro e dar o seu melhor. A técnica e elaboração dos movimentos são importantes sim e enriquecem a dança, mas somente isso não basta!! Num outro momento quero falar mais sobre isso.

Mas voltando ao assunto dos estilos, acho muito necessário colocar alguns pontos nos is. E antes que alguém pergunte, quem é ela para fazer isso, quero dizer que não sou ninguém, não tenho selo disso ou daquilo, não ganhei nenhum concurso e não fiz aula com nenhuma estrela da dança do ventre, não sou formada em ballet clássico, nem moderno e nem jazz e nunca fiz nenhum curso de dança ocidental, não tenho nada contra quem fez tudo isso e quem sabe um dia eu faça também, mas até este momento não fiz. Aprendi meus primeiros passos nas festas e reuniões familiares e da colônia grega e árabe, aprendi com minha mãe, minhas tias, participei de uma porção de grupos folclóricos, ouço música oriental desde que nasci, e só muuuuuito depois, quando eu já tinha 18 anos fui estudar especificamente a Dança do Ventre.

Dito isto, permito-me dizer que a dança do ventre hoje, tanto no Brasil como em outros lugares do mundo, inclusive no Oriente Médio, possui muita influência do ballet e do jazz, e inclusive que no Brasil parece que adquiriu um estilo próprio, muito bonito e admirado, mas longe de ser o tradicional como muitas afirmam com convicção.

O que é então Dança do Ventre tradicional?

Na minha opinião é aquela que minha mãe dança, instintivamente, tendo aprendido com seus familiares que aprenderam com os deles e assim foi. É uma dança de raiz, assim como a menina do subúrbio do Rio dança um samba delicioso sem condicionamentos. Minha mãe nunca vai sambar daquele jeito e a menina nunca vai dançar o que minha mãe dança. É algo não só cultural, mas meio que genético e muito diferente da Dança do Ventre que assisto nos shows e festivais. Em hipótese nenhuma estou dizendo aqui que uma dança é melhor ou pior, muito pelo contrário, a dança tradicional é mais simples, não tem grandes deslocamentos e giros, os braços são mais soltos, a linhas menos harmônicas, mas o “swing” é diferente, é muito difícil explicar sem mostrar.

Sem contar os novos estilos que estão surgindo a cada dia, “Tribal, Fusion e etc”, eu classifico a Dança do Ventre basicamente em:
Dança do Ventre tradicional – que eu já dei uma explicada
Dança do Ventre Clássica Oriental
Dança do Ventre Clássica Ocidental
Dança do Ventre Moderna
Dança do Ventre Criativa ou Livre

O que diferencia um estilo do outro não é somente a música ou os trajes (este último é o que tem menos importância), mas sim os movimentos utilizados, a postura, a leitura musical, a interpretação dos ritmos, maqans e taksins, a forma como são feitos os deslocamentos entre muitos outros aspectos.

Quero encerrar dizendo que a Dança do Ventre é uma arte, e toda arte tem que evoluir e transpor os padrões e condicionamentos, entretanto não podemos esquecer de que esta dança é uma arte que pertence a uma cultura, e que não temos o direito de distorcer, depreciar, ridicularizar, vulgarizar ou descaracterizar esta cultura tão antiga e que muito colaborou com a nossa evolução como seres humanos.

Estou elaborando uma palestra para explicar melhor este assunto, quero muito fazer isso gratuitamente, quero poder plantar essa pequena semente com esperança que ela dê bons frutos, caso você tenha interesse no assunto, peço que entre em contato comigo!!
bjssssss