Toda estudante e bailarina de dança oriental que tem um comprometimento real com esta arte sabe o quanto estudar a música árabe é essencial para o estudo desta dança.
Gosto sempre de dizer que a dança na cultura oriental integra a música, não é algo a parte, são artes complementares e que toda bailarina de dança oriental deve dançar em uníssono com a música, deve fazer parte da orquestra, seria a materialização do som.
Sendo assim, é essencial quando escolhemos uma música cantada saber sobre a letra da música. Entender a poesia do canto nos permite uma entrega maior da alma e uma segurança que nos proporciona liberdade de expressão.
Quando escolhi a música Nebtidi Mnain El Hikaya para dançar no 4º aniversário do Pandora Danças, dia 01/02/2014, tinha uma certa noção do que a música dizia, mas minha escolha foi mais baseada pela sua beleza melódica e por ser uma música que me toca bastante. Existe uma versão grega para esta música chamada "Ta Mavra Matia Sou" (Seus Olhos Negros), que ouço desde muito pequena, mas depois descobri que a original era árabe, interpretada pelo famoso cantor egípcio Abdo Halim Hafez, e muito mais linda e completa (sou grega fanática, mas não sou sem noção, kkkk).
Então fui atrás do que o poema da música dizia, e me surpreendi com a beleza do seu significado e com o tanto que aquele significado simbolizava para mim e representava a minha relação e história com a dança. Me emocione muito, e então optei em não ensaiar a dança, apenas ouvir muito a música, passando a letra várias vezes até que ela fizesse parte de mim, e assim fui eu finalizar a festa de aniversário da minha escola, com uma sensação de plenitude e conquista em meu coração.
Segue a letra da música, em árabe para vcs acompanharem o cantor, e também sua tradução, pela qual devo agradecer imensamente ao meu marido e músico Sami Bordokan que me auxiliou.
Posto também o vídeo da versão original da música. Embriaguem-se e orientem-se!!!!
NEBTIDI MNAIN EL HIKAYA - LETRA E TRADUÇÃO
Onde Começa a História
Laou Hakina, ya habib, nebtidi mnain el hikaya...
Se falássemos, meu amor, por onde começa a nossa história...
Nahna i´ssat hobina, hobina, leeha aktar min bidaya
o nosso amor, nosso amor, tem mais que um começo
Aishna feeha yama aishna, yama aishna
vivemos nela, quando a vivemos
Shoufna feeha yama shoufna, yama shoufna
e enxergamos nela o quanto enxergamos
Lakein misheena u kammena wishwar el hob us´sina
no entanto caminhamos pela estrada do amor e chegamos
Id dounia ma edert taanitna witfar´a beina wit baid´na
o mundo não conseguiu nos contrariar e nem nos separar
Taala, taala, taala win ul i dunia, ana u inta, izzai idirna
venha, venha, venha, e diremos ao mundo, eu e você, como conseguimos
Ni baid an aei azeb, wi naish alla tul ahbeb
nos distanciamos de qualquer sofrimento, e seguimos vivendo para sempre como amantes
Nahdum farhetna, farhetna, farhetna sawa
vamos assegurar nossa felicidade
win khale el hob shabbab
e manter nosso amor sempre jovem
Hoje publicarei neste meu espaço um texto um pouco diferente mas que considero de muita importância. Meu trabalho com a cultura do oriente médio de resgate e manutenção de suas raízes não teria valor nenhum se eu também não criasse raízes no país que vivo e amo. Mas parece que não nos é permitido ter esta identidade histórica e cultural, não nos é permitido ter uma história e mantê-la viva. O que seria do Pathernon se tivessem ampliado a pequena estradinha estreita que dá acesso àquele grande monumento??
Enfim, transcrevo aqui meu desabafo postado hoje no facebook
ECA!!!!! FIQUEI COM VONTADE DE VOMITAR!!!!
TRÂNSITO X ABUSO DE PODER X EXPLORAÇÃO X FALTA DE SENSO DE
IDENTIDADE HISTÓRICA E CULTURAL X OTÁRIOS (ESTES SOMOS NÓS)
Semana passada (09/11 a 12/11/2013) tirei uma mini férias e fui para Ilhabela
(Litoral Norte paulista). Feliz da vida segui rumo a Rodovia Tamoios (SP099), uma estrada que tem
grande significado para mim e que conheço como a palma da minha mão após 38 anos de utilização.
Rodovia Tamoios - SP099
Para
mim é sempre uma grande emoção seguir por aqueles 82km de uma estrada
construída em torno de uma natureza rica, dos quais 27km são de uma serra linda
em plena vegetação nativa da Mantiqueira com lindos trechos com vista
panorâmica para o litoral!!! Tenho comigo nas minhas entranhas a sensação de
cada curva com as quais meu pai costumava brincar qdo eu era pequena
cantarolando em grego e esticando as notas da canção a medida que as curvas
eram mais acentuadas. Momentos realmente felizes e plenos com amigas e pessoas
muito amadas. Ainda lembro do suor frio em minhas axilas quando eu desci aquela
serra pela primeira vez como piloto, no meu primeiro carrinho, um Uninho branco
que só tinha 4 marchas e bancos de plástico, e com trilha sonora do Giannis
Pários (Ta Nissiotika - músicas de ilhas) assim como meu pai costumava fazer,
ainda sinto as lágrimas de emoção descendo pelo meu rosto.
O Litoral Norte de São Paulo sempre me trouxe um "quê" de Grécia, talvez pelo mar calmo e azul.
Mas estas lágrimas já não eram mais de emoção na sexta-feira
passada (08/11/2013). Após um longo afastamento deste lindo litoral de quase 2
anos, foram lágrimas de indignação, de ojeriza, de tristeza e de um sentimento
de perda e de impotência gigantes.
Vista panorâmica da Serra - a dir a "montanha Gorila", como eu e minha
irmã apelidamos quando criança.
As 9 horas de trânsito e transtornos para se chegar ao
destino no qual a média é de 3 horas foi o menor dos fatores. Depois de trabalhar
absurdamente durante meses de domingo a domingo, conseguir tirar 4 dias de
descanso e perder 5 horas deste tempo precioso no meio de obras, ainda foi o de menos. A
minha maior indignação é A OBRA!!!!
Vamos começar com as placas: DUPLICAÇÃO DA TAMOIOS - GOVERNO
DO ESTADO DE SÃO PAULO. Óooohhhhh, vamos aplaudir!!! eca.... fala sério???
desde quando destruir a natureza para duplicar uma estrada
merece aplausos????
Obrigada políticos e empresários por destruir a natureza e
as minhas memórias. É uma pena que as próximas gerações
não poderão mais apreciar a beleza da nossa natureza, e
irão para o litoral como minhocas por baixo da terra,
destinados à miopia e às prisões de concreto! ECA!!
E onde estava uma placa prévia avisando das condições da
rodovia??? não, não tinha nenhuma, em toda a extensão da Ayrton Senna e da
Carvalho Pinto, e nem na entrada da Tamoios havia nenhum aviso. Apenas mais 2
pontos de pedágios além do que já existia há 2 anos.
segunda eca: a obra que já dura mais de 1 ano está
praticamente falindo com os comerciantes locais pois todos que tem conhecimento
da obra não seguem mais por aquele caminho. A famosa lanchonete "Vaca
Preta", que faz uma calabresa clássica, simplesmente vazia... os outros
estabelecimentos então, às moscas, ninguém pensa nos trabalhadores que precisam
destes empregos??
Claro que não, pois serão beneficiados com o
"progresso"!!!!
Então várias coisas começaram a vir na minha cabeça,
licitações, leilões, pedágios... dinheiro, dinheiro e mais dinheiro para
aqueles que já tem muito!!! dinheiro de quem???? meu, seu, do coitado do
trabalhador que perdeu seu emprego...
enfim, a eca final e apoteótica foi no km 60, INÍCIO DO
TRECHO DE SERRA, FIM DA OBRA DE DUPLICAÇÃO!!!!
o que??????????????????????? pra que então???? ampliar 60km
de estrada para todos afunilarem nos últimos e mais delicados 22 quilômetros???
quase saí do carro para vomitar!!!!
fiquei indignada!! não é possível eu pensava!!!!
mas daí claro que não é possível, pois precisamos de mais
licitações, mais leilões, mais pedágios, mais dinheiro, e mais destruição da
natureza!!!
veja bem, não sou contra o progresso, mas também não posso
aceitá-lo a qualquer custo!
A Rodovia Tamoios é um patrimônio paulista, um patrimônio
histórico e cultural, foi pavimentada em 1957 e teve melhorias nos anos 60 e
70, com o nosso dinheiro, e trouxe melhora de vida para a região. É uma
excelente estrada, e nunca teve pedágios pois é nossa, não de nenhuma empresa
privada.
Fazer uma obra que custa mais de R$500.000.000,00 com o
nosso dinheiro para leiloar para uma empresa que terá uma concessão de
utilização de 30 anos e ainda cobrará pedágio é um absurdo, uma afronta, um
assalto a mão armada!! E não pára por aí, pois ainda terá o trecho da serra,
com muito mais complicações pois de um lado está a montanha e do outro o penhasco!!!!
Ou seja, muito mais dinheiro (já há estimativas de mais de R$2 bilhões) e
destruição!
Praia Martins de Sá - Caraguatatuba
será que cabe mais alguém???
E não posso deixar de me perguntar: pra que??? o litoral
paulista nem tem estrutura para mais turistas nas altas temporadas. Falta água,
falta rede de saneamento adequada que não polua o mar e as águas, falta estrutura comercial,
falta até espaço na areia e no mar!!!! Sobra pernilongos, baratas, borrachudos, filas, sujeiras, viroses e
daí falta também atendimento de saúde!
E no final???? ECA!!!!!!!!!!!
É isso aí!!!! Viva o progresso!! Que tal duplicar também a Rio-Santos, a Mogi-Bertioga e trocar seus nomes para nomes de políticos e empresários sujos?? Eca!!!!!!!!!!!!
OBS: Segundo a Associação Brasileira do MP do Meio Ambiente, a obra gerará o maior desmatamento da Mata Atlântica, 370 mil metros!
A Dança do Ventre hoje conquistou todas as partes do mundo, e é executada
por mulheres de todas as idades e etnias. Isso é maravilhoso, entretanto se
quisermos ser fiéis à dança do ventre como tradição da cultura árabe precisamos
tomar muito cuidado com o efeito “telefone sem fio”.
Sou uma apaixonada por esta arte e dedico muitas horas assistindo vídeos
de bailarinas de diversas regiões do mundo e venho percebendo que cada vez mais
esta dança tem se distanciado de sua essência. Cada vez mais a preocupação das
bailarinas é em impressionar o público com sua qualidade técnica, agilidade,
movimentos inusitados e beleza física. Muitas vezes observamos movimentos,
passos e elementos que nunca fizeram parte da cultura árabe.
Sei que a arte não é estática, que a arte evolui, que cada bailarina pode
e deve colocar a sua personalidade em sua dança. Sei que há uma grande diferença
entre uma dança cênica e uma dança “feita em casa”, mas se começarmos a nos
distanciar da essência da dança oriental, daí simplesmente deixa de ser...
E o que é essa essência?
Vou fazer uma analogia: A HISTÓRIA DO FEIJÃO
“Sabemos que o arroz com feijão é o prato que mais representa o povo
brasileiro. Imagine então a seguinte situação:
Você aprende com sua mãe e avó como fazer o feijão. Você aprende que
precisa usar o feijão carioca ou o jalo para fazer este prato típico. Aprende
que é preciso deixa-lo de molho por algum tempo para poder cozinha-lo. E o
principal, aprende que para temperá-lo basta sal e alho, e se quiser pode
adicionar cebola e toucinho. O arroz deve ser o branco, também temperado com sal
e cebola. Mas que todos estes simples ingredientes, feitos e adicionados na
proporção
e ordem certa vão proporcionar um prato de sabor maravilhoso e muito
tradicional do Brasil.
Um chef de cozinha francês tem a oportunidade de experimentar esta
receita, e resolve colocar no cardápio de seu restaurante na França. Mas ele
acha muito simples, e na verdade, ele nem sabe muito bem todos os passos do
processo pois ele só experimentou, mas adorou e quer muito fazer. Então ele
compra um feijão na França que não é o carioquinha ou jalo pois lá não se
encontra este tipo (isto é uma ficção, eu não sei se existe ou não Ok). Daí ele
resolve incrementar o prato, ao invés do arroz branco, ele prepara um arroz
tipo “a grega” e no feijão ele adiciona outros temperos, mostarda, salsinha,
tomilho e pimenta rosa. Ele percebe que se deixar o feijão com caldo, a
apresentação do prato não fica tão bonita, então ele deixa o feijão mais seco,
e para enfeitar a iguaria e dar um toque especial ele coloca como
acompanhamento cogumelos.
O prato faz um baita sucesso, o restaurante fica famoso por ter um prato
brasileiro no cardápio.
Você vai morar na França e fica com saudade de comer feijão, daí as
pessoas te indicam o tal restaurante. Você fica empolgadíssima, vai lá e pede o
prato, e então, a decepção!! Você gostou da comida, o prato era gostoso,
interessante, diferente, mas definitivamente NÃO ERA O FEIJÃO BRASILEIRO!!!”
Como você se sente? Frustrada, enganada, chateada, enfim cada pessoa vai
reagir de uma forma, mas o importante é que você sabe que aquele prato não
representa sua cultura nem suas tradições.
Quero apontar várias coisas neste texto:
1)Se você não quer fazer da forma tradicional, tudo
bem, só não venda seu produto como se fosse;
2)Se você quer fazer o tradicional, se você quer
aprender a essência da dança, beba da fonte,
3)Ser simples não é ser ruim, ser simples não é
fácil, ser simples tem suas qualidades, ser simples não é ser pouco,
4)Os passos e movimentos tradicionais da dança do
ventre não são muitos, mas saber coloca-los na hora certa, com a dinâmica certa,
com a ginga certa é o mais importante, completamente conectada e entregue a
música, aí está a grande questão. Ao invés de se dedicar um tempão para
aprender o “passo da moda”, dedique-se mais em pesquisar sobre a cultura e a
música oriental, mas sempre de fontes fidedignas, prefira sempre os originais,
mas lembre-se, nem todo brasileiro sabe fazer feijão.
Muita gente diz que minha dança é simples, e honestamente não me ofendo
com isso, pois esta é a essência da dança oriental. Eu como bailarina de dança
oriental tenho que me preocupar em traduzir em meu corpo a música de forma prazerosa
e de forma que o público possa entender. A impressão de ser simples se deve pelo fato de ser completamente entendível!! Você entendeu a minha dança completamente, ótimo,
esta era minha intenção, é sinal que eu consegui te passar uma mensagem
claramente, e com muita técnica sim, pois senão a geometria e harmonia dos meus
movimentos não seriam perceptíveis.
A partir do momento que o público não consegue acompanhar o que eu faço e
que eu tenho que pensar para fazer, deixou de ser dança oriental, pois quando
isso acontece há uma desconexão do público e da bailarina com a música, e dança
e música na cultura oriental é uma coisa única, somos um uníssono, todos os
instrumentos produzem um único som, não há harmônicos na música árabe, um dos
pilares da música árabe é sua forma melódica e o meu corpo deve ser esta
melodia de forma plena.
Eu como bailarina devo ser a música, sou um instrumento a mais na
orquestra, a música me rege, se não há mudança de frase musical, não há mudança
de passos e movimentos, se não há floreios na melodia, não haverá floreios em
meu corpo. Eu devo seguir a música em tudo, em suas intenções, dinâmicas,
energia, e isto não quer dizer seguir cada “plin” do qanoum, isto quer dizer
estar entregue totalmente deixando o som reverberar no corpo.
A música árabe é cíclica, sendo assim a dança também deve ser, ou seja,
não há nada de errado em repetir o mesmo movimento se a música o solicita. Esta
circularidade é o que proporciona o êxtase, o prazer, a viagem do público em seu
corpo, se mudarmos de movimento a cada segundo, não se estabelece a conexão.
A essência da dança oriental está no prazer sentido pela bailarina e
compartilhado com o público, e para haver prazer é preciso que o corpo esteja
relaxado e desconectado com o pensamento de querer impressionar!
Quanto mais dançamos a mesma música, mais íntima dela nos tornamos, e
mais podemos explorar de forma natural suas minúcias.
Portanto, se você quer dançar com estilo realmente árabe, pense em tudo
isso!! Abaixo, alguns vídeos para ilustrar e frases para refletir.
“A Simplicidade é o último grau da sofisticação” – Leonardo da Vinci
“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito
trabalho” – Clarice Lispector
“O assunto mais importante do mundo pode ser simplificado até o ponto em
que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. Isso é, ou deveria ser, a mais
elevada forma de arte.” – Charles Chaplin
“A Simplicidade é o último degrau da sabedoria.” – Khalil Gibran
Vem aí, a nova novela da Globo: Salve
Jorge, cenário Brasil e Turquia, com todos os ingredientes que a autora Glória
Peres usa em suas receitas, e um deles, a dança.
O alvoroço no mundo da dança do ventre
já começa, as alunas já começam a questionar como é o estilo turco de dança do
ventre, quais são as diferenças e as características marcantes.
Cléo Pires e a "Dança com 7 Véus"
Uma certa angústia já se inicia, sabemos
que tudo que se relaciona a nossa amada dança quando vai parar na grande mídia,
geralmente, é de forma distorcida, que temos um trabalho redobrado para
desmistificar e desfazer os estereótipos criados, mas vamos pensar pelo lado
bom da coisa, não é sempre que ganhamos uma divulgação gratuita, e que apesar
de muita gente começar a fazer aulas por farra do momento (como ocorreu na
época do “Clone”), muitas se apaixonam e acabam levando a sério, ficando e se
transformando em lindas bailarinas!
Entretanto precisamos estar preparadas
para esta avalanche, e pensando nisso resolvi compartilhar o que eu conheço e
posso sobre este assunto.
E antes que perguntem ou indaguem o por
que de eu ter algum conhecimento sobre o assunto, já me anteciparei: conheço o
assunto pois sou de origem grega e estudo as danças gregas desde os 7 anos de
idade!! E então virá a grande questão: O que as danças gregas tem haver com
isso??? daí
eu respondo: quase TUDOOOOOO.
Vamos entender isso!
Gengis Khan
Para entendermos os aspectos da dança do
ventre turca, precisamos primeiro entender o que é a Turquia. A Turquia é um
país, nação, recente, nomeada república Turca em 1922. Sua origem deriva do
Império Otomano. Os turcos originais eram povos de essência guerreira, vindos
do Turcomenistão, norte da Mongólia (lembrem das histórias de Gengis Khan), e após
processos de conquistas territoriais e invasões que iniciaram por volta do
século XI, principalmente na região da Anatólia (território atual da Turquia
que até então era o Império Bizantino herdeiro da civilização helênica) se deu
origem aos turcos otomanos (islâmicos).
Após a tomada de Constantinopla em 1453
(atual Istambul), o Império Otomano (turcos otomanos) teve seu apogeu entre os
séculos XV e o XVIII, e sua área territorial de dominação política e militar abrangia
o sudeste europeu, Ásia Menor, países árabes, costa mediterrânea do norte da
África e costa do mar Cáspio.
Até a constituição do Estado Turco em
1922, a região da Anatólia era fortemente povoada por gregos (helênicos), os
quais ali estavam desde a antiguidade (1200 ac) e tinham suas culturas
fortemente estabelecidas. Por receios políticos e religiosos, após este período
iniciou nesta região uma forte perseguição aos gregos (que eram cristãos
ortodoxos), e iniciaram grandes genocídios e massacres. Estima-se que foram
expulsos a partir de então cerca de 2.000.000 (dois milhões) de gregos (minha
avó paterna foi um deles), e os que permaneceram na região foram obrigados a se
converter ao islamismo e mudaram seus nomes para não morrerem ou serem
perseguidos, entretanto permaneceram com suas tradições e costumes.
Santa Sofia (Istambul/Turquia) - Catedral Grega Bizantina, construída
no século VI, transformada em mesquita pelos turcos otomanos em
1453 até 1931. Em 1935 transformou-se em museu. Atrás o estreito de
Bósforo,canal que separa a Ásia da Europa.
A Turquia sucedeu o Império Otomano, que
por sua vez sucedeu o apogeu cultural do Império Árabe, um período de grande
produção cultural chamado a idade do ouro, ocorrido entre os séculos VII e XII,
e também o Império Bizantino, cuja cultura era a intersecção entre as culturas
gregas da antiguidade clássica e as culturas orientais. Aspectos da cultura
musical e da dança destes povos foram absorvidos pelos turcos e esse grande
caldeirão que inclui em boa parte a cultura helênica e a árabe e também
aspectos das culturas persas e mongóis deram origem ao que denominamos hoje de
cultura turca.
Acampamento cigano na cidade de Esmirna/Turquia
Outro aspecto que influencia bastante a
cultura turca atual é a forte concentração de ciganos (romani), provavelmente a
maior do mundo estimada em cerca de 5.000.000, e assim como no Oriente Médio,
são estes ciganos os grandes responsáveis pelas manifestações artísticas de
música e dança nas tavernas, festas, casamentos e feiras de rua agregando a
cultura local a suas tradições.
Após dito tudo isto, conseguimos
vislumbrar o que seria a dança do ventre turca. Sabemos que quando os turcos
ali chegaram esta dança já existia, ou seja, não é uma dança de origem turca,
mas sim uma dança que foi absorvida e sofreu influências múltiplas.
Estátua grega encontrada em Esmirna
Dançarina velada
No estilo praticado pelas bailarinas
turcas (que em sua maioria tem origem cigana pois há um grande preconceito em
volta da dança assim como em todo o Oriente Médio), podemos observar muitos
aspectos da dança do ventre libanesa e da dança do ventre grega, e alguma
influência das danças persas e dos rituais sufis. Algumas bailarinas mesclam
movimentos das danças ciganas e também de danças folclóricas, principalmente o
karsilamas, que tem origem na Trácia (em breve postarei um artigo específico
sobre esta dança).
Do estilo grego observamos que foi
herdado, além dos ritmos (chiftetelis, karsilamas e outros), movimentos
pélvicos, postura e eixo dos quadris a frente com um leve cambrê (que também
aparece no estilo libanês), redondos e oitos horizontais grandes, cambrês
exagerados, muito trabalho de chão e a forte presença dos snujs (zília) também
presente entre os ciganos.
Do estilo libanês, os grandes
deslocamentos e giros, a acentuação para cima dos movimentos (que também aparece
no estilo grego) e nos shows “bellydance”, os trajes mais modernos e ousados bem
como o uso de sapatos de salto.
Do cigano podemos observar a manipulação
das saias, os “puladinhos” (que também tem uma influência do karsilamas grego,
que por sua vez tem influência cigana), os giros do tipo “helicóptero”, as
acrobacias (queda turca, contorcionismos e equilibrismo) e muito de suas danças
populares.
Das danças persas podemos notar os
gestuais e influências nos trajes mais tradicionais (não para shows “bellydance”),
e também o giro oriental o qual pode ser observado nos rituais sufis.
E da herança da sua tradição militar e
guerreira, podemos observar uma grande eficiência técnica, precisão e
bailarinos atléticos (principalmente nos grupos folclóricos), o que acredito
ser uma das características mais marcantes da dança turca atual.
Enfim, percebam que estas influências e
características são circulares e uma cultura influencia a outra e assim
continua, e este intercâmbio é maravilhoso pois enriquece a nossa dança de
maneira infinita.
Algo muito importante a salientar é que
a dança do ventre para os turcos não é algo enraizado em suas tradições diárias
assim como vemos a “raksa” nos países árabes, o “shaabi” e o “baladi” no Egito
e o “tsiftetelis” na Grécia, ela é utilizada mais como show, algo para ser
mostrado, atração de turistas do que como entretenimento local. Para elucidar
melhor o que estou dizendo, transcrevo aqui uma das impressões que a bailarina
Brysa Mahaila relata em seu blog ao retornar de sua viagem à Turquia:
“Os turcos vêem a dança do ventre apenas
como um espetáculo de variedade. As bailarinas não se preocupam com a arte e a
qualidade da dança, infelizmente lá a dança é vista como um show para divertir
o público e não como uma arte de exaltação a sensibilidade e ao feminino.”
Relata Brysa sobre os espetáculos de dança do ventre na Turquia.
Enfim, de qualquer forma existem
bailarinas turcas maravilhosas, que são grande fonte de estudo e que podemos
nos inspirar para conhecer um pouco mais deste estilo, segue um vídeo da minha
preferida, Nesrin Topkapi:
Outros aspectos culturais e
curiosidades:
1)Não confundam um
árabe com um turco. Isso acontece muito no Brasil por conta das primeiras
imigrações de povos árabes que chegavam com passaportes turcos devido ao período
da dominação otomana. O turco fala o idioma turco, tem origem étnica diferente
e possui tradições próprias.
2)A palavra Istambul deriva do termo grego “I Poli”, ou
seja “a cidade”. Assim era denominada coloquialmente pois era lá o centro comercial,
artístico e cultural da região, ou seja, onde as coisas aconteciam e havia um
intercâmbio cultural forte. Outra cidade muito importante para o
desenvolvimento das artes é Esmirna, também um pólo cultural.
3)Assim como a dança, a música turca também é um grande
caldeirão de misturas culturais, mas os instrumentos utilizados são os mesmos
da música árabe clássica (e grega também), o alaúde, o qanoun, a nay, o derbak
e a presença do saz (uma espécie de bouzouki). A nomenclatura dos ritmos também
é a mesma e a qualidade melódica da música oriental permanece (ou seja, uma
música modal, e não tonal).
4)O olho turco (amuleto), é um grande exemplo do intercâmbio
cultural e absorção das culturas locais pelos turcos. Sua origem é egípcia (o
olho de hórus) e foi adotado pelos gregos que começaram a utilizar um olho azul
como amuleto para espantar “mau olhado”, nos países árabes também é costume
utilizar uma pedra azul para este fim, e hoje faz parte da cultura turca.
Se você quiser saber mais sobre o
“Tsiftetelis” (estilo grego de dança do ventre) e também entender um pouco
melhor essa conversa cultural entre gregos e turcos, sugiro a leitura deste
artigo: clique aqui
Enfim, espero ter contribuído para que a
nossa classe de bailarinas e apaixonados pela dança oriental esteja mais
preparada para a próxima avalanche.
Na época da novela “O Clone”, quem
estava neste meio sabe bem do que eu estou falando quanto às distorções, mas
também sabe que vinha muita aluna querendo fazer aula e perguntando:
“Eu vou
dançar que nem a Jade (Giovana Antonelli)?, daí eu vou citar o que uma colega de profissão, a
Juliana Leme, disse e que eu particularmente amei: “Não querida, vc não vai
dançar que nem a Jade, vc vai dançar melhor!”
Nestes últimos dias me deparei com 3 momentos de 3 grandes artistas (Souhair Zaki, Glykeria e Fernanda Montenegro). Momentos estes que me fizeram refletir sobre a questão da idade.
Percebi que estas 3 diferentes e maravilhosas artistas, no esplendor da vida e da maturidade conseguiram superar a si mesmas e me surpreender ainda mais com o seu talento o qual eu já admirava.
O carisma e a sabedoria destas mulheres é algo que pegou dentro da minha alma, o que menininha nenhuma com corpinho e rostinho perfeito conseguiram fazer.
Refletindo sobre estas 3 mulheres incríveis, um pensamento não sai da minha cabeça, quero ficar incrível logo!!! Entretanto sei que isto vai demorar, pois é um longo processo, só com o passar dos anos é que vamos acumulando tanta bagagem a ponto de que ela começa a pesar tanto que sua distribuição torna-se inevitável, pois aquele que não distribui torna-se pesado e não consegue mais caminhar!
Podemos até nascer com um mega talento, mas a experiência de vida somada a este talento numa mente aberta faz coisas inacreditáveis, de beleza ímpar e sem artifícios. É um simples que representa o tudo!!
A grande bailarina Souhair Zaki, dançando, já com uma certa idade. Percebam quanta emoção é transmitida em cada movimento, a entrega, o prazer e o domínio total da cena.
Esta é a cantora grega Glykeria, no auge dos seus 64 anos estava em turnê pela América Latina, esta cena é a entrada dela no último show realizado em São Paulo, no dia 10/05/2012, o qual tive o imenso prazer de estar presente. Acompanho a carreira desta talentosa cantora que sempre teve uma linda voz, entretanto percebam como o seu timbre esta mais aveludado, mais trabalhado e carregado de emoções, sem contar o lindo "mawell" que ela executou no meio da música.
E aqui uma maravilhosa entrevista, um banquete de sabedoria, deste talento indiscutível que é a Fernanda Montenegro. Palavras que servem para qualquer artista, e que para nós bailarinas é cabem como uma luva!
Outras maravilhosas artistas que me impressionam em sua maturidade:
Tamalyn Dallal
Nadia Gamal, aos 60 anos
Nossa, não vejo a hora de ficar velha, mas quero ficar assim, carregada em emoções e sabedoria!!!
E da próxima vez que alguém falar que está velho para dançar ou que você é velha para dançar, lembre-se deste post!!!
bjssssss
Nos dias 13, 14 e 15/04 tivemos aqui na cidade de
São Paulo/Brasil, o maior festival de danças árabes da América Latina, o
Mercado Persa, idealizado pela mestra Samira e organizado por Shalimar Mattar,
este festival que começou pequeno e há 14 anos atrás atinge hoje uma dimensão
gigantesca e alcança milhares de pessoas entre as que o acompanham fisicamente
e também através das redes sociais, youtube, blogs e etc.
Neste ano não consegui participar do festival por
razões diversas e pessoais, mas não pude deixar de dar uma “escapadinha” e
prestigiar o evento na sexta e no sábado. Assisti algumas apresentações,
acompanhei alguns concursos e presenciei algumas situações e no final das
contas, também é legal ver “de fora” pois pude avaliar tudo por um outro olhar.
Foi muito prazeroso assistir o show de abertura na
sexta-feira a noite, no qual o tema foi a história da dança do ventre no
Brasil. Senti uma emoção muito forte em reviver momentos que fizeram parte da
minha vida, a reprodução de uma “taverna” onde tinham apresentações de
bailarinas relembraram a minha infância nos restaurantes e festas gregas e
árabes, quando ninguém achava estranho colocar uma bailarina em cima da mesa e
presenteá-la com dinheiro. Rever também as primeiras gerações de bailarinas da
Khan El Khalili, como Aisha Almee e Munira Magharib no palco, com modelitos “a
moda antiga” e dançando “a moda antiga” também me emocionaram e me relembraram
meus momentos frequentando a Casa de Chá e depois as primeiras versões das
Noites no Harém. Rever Cláudia Cenci no palco também foi maravilhoso, relembrei
da época do Clone e toda loucura que vivemos nesta fase com milhares de
apresentações por dia, dançando de um tudo para todos.
Muitas coisas lindas e interessantes fizeram minhas
pupilas brilharem. Assistir Saida dançar ao vivo é avassalador, a energia da
Samira e o sorriso da Shalimar são sempre contagiantes, e não poderia deixar de
citar a linda apresentação de dabke que Anthar Lacerda me proporcionou, um
colírio!
A quantidade de roupas lindas nos palcos, nos
desfiles, à venda nas barracas, uma incrível variedade de assessórios também
fazem do evento um sucesso. Fiquei realmente feliz em perceber a volta dos
figurinos de dança do ventre num estilo mais tradicional, bem como deste
resgate em muitas das apresentações e resultados de concursos.
A culinária também não deixa a desejar, um falafel
para árabe nenhum botar defeito me deu energia para um dia inteiro. E sem
contar o prazer de reencontrar pessoas queridas, conhecer profissionais
diferentes e ver como cresceu o número de praticantes da nossa tão amada dança
do ventre.
Entretanto, algo me incomodou e me deixou muito
chateada e me senti na obrigação de dizer. Mesmo com toda a acessibilidade à
informação que as pessoas tem hoje em dia a respeito das danças orientais, a
quantidade de grupos que distorceram tradições e folclores foi decepcionante.
Alguns grupos não tem a mínima noção do que é uma dança folclórica e do que não
é, da questão dos trajes, das músicas, dos movimentos e passos. Neste ponto,
gostaria de deixar um alerta aos grupos que se inscrevem como folclóricos.
Estudem, pesquisem, façam aulas com quem entende, leiam o regulamento do
festival, e só depois concebam um trabalho para apresentar. É preciso ter um
pouco de respeito com o público, seja este leigo ou não.
Veja bem, o leigo assumirá como verdade a sua
proposta, e o não leigo se sentirá ultrajado e agredido (foi como me senti),
não é o que você quer né!
Um bom começo é a definição de folclore pelo
Aurélio (dicionário) – folclore é o conjunto de poemas, canções, danças,
tradições e lendas de uma determinada região.
Outro conceito primordial é o de que estas danças
geralmente nascem de situações do cotidiano, são uma manifestação do
comportamento cultural, histórico e social dos indivíduos e expressam uma
tradição viva e popular.
É claro que quando levamos um folclore para o palco
estamos adaptando a tradição para um espaço cênico, mas há de se ter muito
cuidado para não distorcer ou ridicularizar. Sinceramente achei que o Brasil já
tinha superado isto, daí fiquei realmente triste.
Outra questão que me deixou chateada foi a falta de
educação do público. Precisamos sempre respeitar o artista que está no palco e
também àqueles que o estão prestigiando. Não é elegante passar na frente, falar
alto ou atrapalhar a quem esta assistindo. O mínimo é esperar o pequeno
intervalo entre uma dança e outra para passar, afinal, não é tanto tempo assim
né!
De qualquer forma, é sempre bom presenciar um
evento como este com a cara do Brasil, pois o que eu mais admiro no Mercado
Persa é a liberdade de expressão do artista. Ou seja, só não dança quem não
quer, pois são muitas as categorias, e para quem não quer concorrer, há sempre
a possibilidade de participar das mostras, tem espaço para todos! E podem já
reservar o meu, pois em 2013 estarei lá, eu e a Pandora Cia de Danças!!
Apreciem a linda apresentação da vencedora do concurso Solo Profissional Star
Dança do Ventre clássica, impecável, sem invencionices!
Quero compartilhar com vocês esta especial entrevista que cedi para o blog da bailarina Ísis Zahara. Além de mencionar alguns detalhes de como iniciei nas danças orientais, falo um pouquinho também sobre a dança do ventre no estilo grego e algumas curiosidades!