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Bem Vindo!!!

Bem vindo ao meu espaço de divulgação da minha arte e também da minha vivência como ser humano criativo!!! Aqui vocês encontrarão não só u...

9 de ago. de 2014

Improviso na Dança Vicia!! Até num derbak!

Hoje vou compartilhar com vocês um pouco da minha vivência na dança!

Quando comecei a dançar eu achava inconcebível dançar de improviso, achava que não fica perfeito e que se perdia muita coisa na música, daí os anos foram passando e comecei a perceber que o improviso tb tem suas vantagens, e acho que a dança mais espontânea e de acordo com o que estamos sentindo naquele momento é a maior delas. 
foto: Thiemi Ota


Há uns 3 anos resolvi que queria aprender a improvisar de verdade e então comecei a praticar o improviso e comecei a viciar nesta forma de dançar, mas dançar um derbak de improviso pra mim ainda era demais.


Escolhi um derbak para minha apresentação no Sarau Oriente-se do Pandora Danças, que ocorreu no dia 02/08/2014, estudei muuuito a música e coreografei até a metade pois a semana foi muito puxada, dei uma boa ensaiada nesta metade e não tive tempo de coreografar a parte que o derbak "cresce", mas ouvi muito e marquei mentalmente algumas partes. 


Daí descobri algo inédito pra mim, improviso vicia. Entrei pra dançar e já nos primeiros 25seg da música fiz tudo diferente do que eu tinha ensaiado, quando percebi fiquei meio apreensiva (pra mim é nítido aos 30seg do vídeo a minha tensão) e foi então que após 5seg apertei a tecla "foda-se" e segui em frente, terminei a dança sem lembrar quase nada do que eu tinha feito, com as pessoas empolgadíssimas e elogiando muito a dança, e para a minha surpresa quando assisti o vídeo eu achei que ficou muito melhor do que eu tinha coreografado, muito mais solto, mais gostoso, mais dinâmico. Menos perfeito sim, mas muito mais intenso e verdadeiro!!! Enfim, fica a dica!! 

Segue o vídeo da dança, espero que gostem!!



14 de jul. de 2014

Ser Artista

O que é ser artista? Eis uma pergunta que vem me atormentando já há algum tempo! Principalmente no campo da dança oriental! Afinal, será que toda bailarina de dança oriental é artista? Ou será que algumas são artistas e outras são apenas executantes...

Atacada por uma rinite sem fim, ontem resolvi me deitar mais cedo e fuçar nos milhões de canais que temos disponíveis, e “para variar”, filmes repetidos de super heróis americanos e filmes de terror juvenil inundavam a programação. Então, sentada com a cabeça erguida por muitos travesseiros para poder respirar atiço meu controle remoto para o fim dos meus canais a cabo, para um canal chamado CURTA, ao qual sempre recorro e indico a programação. E apesar de não querer assistir nada muito denso pois o meu nariz e mal estar tiravam completamente minha concentração (por isso recorri primeiro aos canais de filmes, em vão), me deparei com um maravilhoso documentário sobre Manoel de Barros (coloquei o documentário na íntegra no final do post, vale muito a pena assistir)

Manoel de Barros, falei alto e indaguei a mim mesma, este nome não me é estranho....
E me lembrei de que este nome pertencia ao hall de leituras obrigatórias na minha época do colegial, o tal do ensino médio atual.

Manoel de Barros é um poeta brasileiríssimo, de uma originalidade ímpar e que retrata maravilhosamente bem o que é o Brasil.

“...tudo o que eu não invento, é falso...”

Encantada com sua entrevista, com os relatos das pessoas sobre ele, e com trechos citados de suas poesias, comecei a me questionar porque este grande artista não me marcou anteriormente, lá atrás, na minha adolescência quando tive acesso às suas obras!

Será que eu é quem não tinha maturidade ou bagagem suficiente para compreender a profundidade de suas palavras ou será que o ensino não soube me mostrar isso de forma que um adolescente achasse interessante? Para falar a verdade, nem lembro se li a obra deste poeta, pois não li vários dos livros obrigatórios, simplesmente li resumos de apostilas de cursinhos, “contrabandeadas” entre os colegas, com o único objetivo de decorar o que iria cair no vestibular!!!

Pois é, quantidade definitivamente não é qualidade, preferia ter lido uma só obra mas que esta tivesse ficado para sempre impressa em mim e que eu pudesse lê-la repetidas vezes. E assim, fiz a analogia, EURECA, ou melhor, em grego mesmo, ÊVRIKA, ou em português, ACHEI!!! Ao ler a frase deste maravilhoso poeta, constatei também que na arte precisamos improvisar e criar sempre, e para isto precisamos repetir os mesmos processos, e como disse o poeta:

“repetir, repetir e repetir... até sair diferente”

E assim concluí o que eu já sabia, tem algo de muito errado com o sistema de ensino...

Uma das coisas que mais me chamou atenção na entrevista foi a simplicidade deste poeta, certo momento ele disse, não me lembro das palavras exatas, mas foi a forma que eu guardei:
“A poesia não é para ser entendida, é para ser incorporada, se eu quisesse que fosse entendida de forma racional, seria prosa e não poesia”

Assim vejo também a dança, e todas as artes. E daí me lembrei das aulas de literatura, os professores fazendo a gente ler um monte de poesias e decifrá-las como enigmas, interpretá-las e etc... o que será que o autor quis dizer com isso?... Quanta besteira, não era melhor ler e absorver, de forma interna, deixar mexer e pronto!!!!

E então cheguei a mais uma conclusão. Não somos ensinados para “entender” a arte, ou melhor, absorver a arte.

"A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios."

Esses seccionamentos e encaixotamentos tão presentes no nosso mundo atual são tão ante arte que parecem até que não somos humanos!

Hoje na dança vejo muito este movimento de secção, de querer entender, explicar o que se dança, tudo precisa ter um roteiro lógico. A técnica tem que ser perfeita, a estética tem que ser perfeita, a representação tem que ser perfeita. Mas e seu eu sentir diferente, será que está errado? Como é que alguém pode julgar o que eu sinto?

Manoel de Barros não se importa de escrever “errado”, achei lindo quando ele falou sobre a fala das crianças, que dizem coisas sem sentindo mas que entendemos completamente e que querem dizer muito além.
...Pegar o vento...nadar no rio e ficar todo molhado de peixe... borboleta é cor que voa...sou da invencionática...
(que saco...o corretor ortográfico grifou de vermelho a última palavra, e quer alterar para invencionice, affff)

“Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.”

Manoel de Barros relatou que sempre achou que via as coisas de forma diferente da maioria das pessoas, que via tudo meio que invertido, e que não se acha muito normal. Acredito que todo artista se sente assim, mas será que nós é que não somos normais? Afinal, o que é ser normal? Na verdade, tenho a plena convicção que o artista de verdade é sim uma alma inquieta, enxerga o mundo de forma diferente, sente as coisas com mais intensidade, mas porque às vê da forma que elas realmente são!

“É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.”

Observo no meio da dança oriental bailarinas lindas e perfeitas, excelentes executantes de movimentos com figurinos caros e impecáveis, enchem os olhos daqueles que às prestigiam, mas será que isto é arte?
Será que só a perfeição é bela? Se assim fosse um quadrado seria sempre mais belo que um triângulo escaleno (aquele que possui lados e ângulos desiguais)

“... a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, balanças ou barômetros. Que a importância de uma coisa seja medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.”

Mas afinal, o que é ser artista?

Se você achou que eu ia te responder com uma fórmula pronta o que é ser artista, é porque não entendeu nada!!!

“... entender é para parede, procure ser árvore.”


Documentário - Manoel de Barros - "Só dez por cento é mentira"


7 de mai. de 2014

Aula de Música - Ritmos, Instrumentos e Estilos

Atendendo a pedidos, principalmente de estudantes das danças árabes que moram muito longe de São Paulo o que dificulta o acesso à cursos presenciais, de tempos em tempos vou escolher uma música para estudá-la juntamente com vocês.

Neste post escolhi uma das minhas últimas apresentações por 2 razões. A primeira é porque a música escolhida é uma interpretação do músico Abboud Abdel Aal, que faz parte do álbum Arabian Nights. Este músico, apesar de pouco conhecido entre as bailarinas, tem interpretações lindíssimas de músicas conhecidas e também é excelente na execução de taqsins, particularmente as de violino e de acordeon. A outra razão, é porque esta música, além de muito tradicional, tem uma riqueza sonora e rítmica interessantes.


Eu diria que este é um estilo de música ideal para a dança oriental, pois proporciona a entrega, a brincadeira, a instrospecção, a troca com o público e um repertório variado de movimentos, especialmente os de quadril.

Ela inicia com uma taqsim de violino (improviso melódico oriental), com base rítmica em wahda chifteteli
DUM-TAK-TAK/DUM-TAK-

A taqsim dura até 1min30seg. E então se inicia uma música chamada "Hizzi ya Nawaem" (o requebrar da donzela). Esta música é composição do famoso Farid Atrash, foi composta para dança oriental e apesar do compositor ser egípcio, esta canção faz menção à um estilo de folclore mais libanês. No vídeo acima o ritmo de base é o maksoum, a instrumentação é basicamente violino e aos 2mim20seg uma nay faz uma pequena frase.
No final da postagem, coloquei o vídeo da canção que foi interpretada originalmente por Issam Rajji, cantor libanês, e a bailarina Nadia Gamal, que também fez muito sucesso no Líbano, talvez por isso a escolha desta música neste filme.
MAKSOUM: DUM TAK-TAK DUM-TAK-

Aos 3min08seg, inicia uma taqsim de acordeon no estilo baladi, aos 3min57min percebemos a típica brincadeira entre acordeon e derbak muito comum neste estilo musical, aos 4min25seg, entra a base rítmica em masmoud saghir (vulgo baladi) e o acordeon continua sua improvisação melódica e aos 5min16seg percebemos a evolução do ritmo para o fallahie.
MASMOUD SAGHIR: DUM DUM-TAK DUM-TAK-

Aos 6h12seg inicia um solo percussivo com o ritmo laff /malfouf em estilo da dança hagalla (3 compassos com uma variação no quarto) e depois percebemos as brincadeiras típicas de um solo percussivo para dança e aos 6min45seg temos novamente o maksoum como base rítmica até que acelera e finaliza em um "rush" (rrrrrrrrrrrrrrrr).
LAFF: DUM-TAK-TAK

Espero ter ajudado, bons estudos!!!!! Aproveito para convidar para o próximo curso que darei em SP, um intensivo em RITMOS muito rico e preparado com todo o carinho!

Para ficar por dentro de todas as minhas novidades, dicas, conteúdos e eventos dançantes, não deixe de se inscrever em minha lista!!

 
CURSO ESPECIAL - SEGUNDO SEMESTRE 2019 - VAGAS LIMITADAS


Música - Hizzi ya Nawaem
Issam Rajji e Nadia Gamal

28 de abr. de 2014

Música - Nebtidi Mnain El Hikaya

Toda estudante e bailarina de dança oriental que tem um comprometimento real com esta arte sabe o quanto estudar a música árabe é essencial para o estudo desta dança.

Gosto sempre de dizer que a dança na cultura oriental integra a música, não é algo a parte, são artes complementares e que toda bailarina de dança oriental deve dançar em uníssono com a música, deve fazer parte da orquestra, seria a materialização do som.

Sendo assim, é essencial quando escolhemos uma música cantada saber sobre a letra da música. Entender a poesia do canto nos permite uma entrega maior da alma e uma segurança que nos proporciona liberdade de expressão.

Quando escolhi a música Nebtidi Mnain El Hikaya para dançar no 4º aniversário do Pandora Danças, dia 01/02/2014, tinha uma certa noção do que a música dizia, mas minha escolha foi mais baseada pela sua beleza melódica e por ser uma música que me toca bastante. Existe uma versão grega para esta música chamada "Ta Mavra Matia Sou" (Seus Olhos Negros), que ouço desde muito pequena, mas depois descobri que a original era árabe, interpretada pelo famoso cantor egípcio Abdo Halim Hafez, e muito mais linda e completa (sou grega fanática, mas não sou sem noção, kkkk).

Então fui atrás do que o poema da música dizia, e me surpreendi com a beleza do seu significado e com o tanto que aquele significado simbolizava para mim e representava a minha relação e história com a dança. Me emocione muito, e então optei em não ensaiar a dança, apenas ouvir muito a música, passando a letra várias vezes até que ela fizesse parte de mim, e assim fui eu finalizar a festa de aniversário da minha escola, com uma sensação de plenitude e conquista em meu coração.

Minha Dança - https://www.youtube.com/watch?v=OnFNvYP06ZM

Segue a letra da música, em árabe para vcs acompanharem o cantor, e também sua tradução, pela qual devo agradecer imensamente ao meu marido e músico Sami Bordokan que me auxiliou.
Posto também o vídeo da versão original da música. Embriaguem-se e orientem-se!!!!

NEBTIDI MNAIN EL HIKAYA - LETRA E TRADUÇÃO
Onde Começa a História

Laou Hakina, ya habib, nebtidi mnain el hikaya...
Se falássemos, meu amor, por onde começa a nossa história...

Nahna i´ssat hobina, hobina, leeha aktar min bidaya
o nosso amor, nosso amor, tem mais que um começo

Aishna feeha yama aishna, yama aishna
vivemos nela, quando a vivemos
Shoufna feeha yama shoufna, yama shoufna
e enxergamos nela o quanto enxergamos

Lakein misheena u kammena wishwar el hob us´sina
no entanto caminhamos pela estrada do amor e chegamos

Id dounia ma edert taanitna witfar´a beina wit baid´na
o mundo não conseguiu nos contrariar e nem nos separar

Taala, taala, taala win ul i dunia, ana u inta, izzai idirna
venha, venha, venha, e diremos ao mundo, eu e você, como conseguimos

Ni baid an aei azeb, wi naish alla tul ahbeb
nos distanciamos de qualquer sofrimento, e seguimos vivendo para sempre como amantes

Nahdum farhetna, farhetna, farhetna sawa
vamos assegurar nossa felicidade
win khale el hob shabbab
e manter nosso amor sempre jovem



Até mais!!!


15 de nov. de 2013

ECA!!!! DESORDEM E REGRESSO

Hoje publicarei neste meu espaço um texto um pouco diferente mas que considero de muita importância. Meu trabalho com a cultura do oriente médio de resgate e manutenção de suas raízes não teria valor nenhum se eu também não criasse raízes no país que vivo e amo. Mas parece que não nos é permitido ter esta identidade histórica e cultural, não nos é permitido ter uma história e mantê-la viva. O que seria do Pathernon se tivessem ampliado a pequena estradinha estreita que dá acesso àquele grande monumento??
Enfim, transcrevo aqui meu desabafo postado hoje no facebook

ECA!!!!! FIQUEI COM VONTADE DE VOMITAR!!!!

TRÂNSITO X ABUSO DE PODER X EXPLORAÇÃO X FALTA DE SENSO DE IDENTIDADE HISTÓRICA E CULTURAL X OTÁRIOS (ESTES SOMOS NÓS)

Semana passada (09/11 a 12/11/2013) tirei uma mini férias e fui para Ilhabela (Litoral Norte paulista). Feliz da vida segui rumo a  Rodovia Tamoios (SP099), uma estrada que tem grande significado para mim e que conheço como a palma  da minha mão após 38 anos de utilização. 

Rodovia Tamoios - SP099
Para mim é sempre uma grande emoção seguir por aqueles 82km de uma estrada construída em torno de uma natureza rica, dos quais 27km são de uma serra linda em plena vegetação nativa da Mantiqueira com lindos trechos com vista panorâmica para o litoral!!! Tenho comigo nas minhas entranhas a sensação de cada curva com as quais meu pai costumava brincar qdo eu era pequena cantarolando em grego e esticando as notas da canção a medida que as curvas eram mais acentuadas. Momentos realmente felizes e plenos com amigas e pessoas muito amadas. Ainda lembro do suor frio em minhas axilas quando eu desci aquela serra pela primeira vez como piloto, no meu primeiro carrinho, um Uninho branco que só tinha 4 marchas e bancos de plástico, e com trilha sonora do Giannis Pários (Ta Nissiotika - músicas de ilhas) assim como meu pai costumava fazer, ainda sinto as lágrimas de emoção descendo pelo meu rosto.
O Litoral Norte de São Paulo sempre me trouxe um "quê" de Grécia, talvez pelo mar calmo e azul.


Mas estas lágrimas já não eram mais de emoção na sexta-feira passada (08/11/2013). Após um longo afastamento deste lindo litoral de quase 2 anos, foram lágrimas de indignação, de ojeriza, de tristeza e de um sentimento de perda e de impotência gigantes.
Vista panorâmica da Serra - a dir a "montanha Gorila", como eu e minha
irmã apelidamos quando criança.
As 9 horas de trânsito e transtornos para se chegar ao destino no qual a média é de 3 horas foi o menor dos fatores. Depois de trabalhar absurdamente durante meses de domingo a domingo, conseguir tirar 4 dias de descanso e perder 5 horas deste tempo precioso no meio de obras, ainda foi o de menos. A minha maior indignação é A OBRA!!!!
Vamos começar com as placas: DUPLICAÇÃO DA TAMOIOS - GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Óooohhhhh, vamos aplaudir!!! eca.... fala sério???
desde quando destruir a natureza para duplicar uma estrada merece aplausos????

Obrigada políticos e empresários por destruir a natureza e
as minhas memórias. É uma pena que as próximas gerações
não poderão mais apreciar a beleza da nossa natureza, e
irão para o litoral como minhocas por baixo da terra,
destinados à miopia e às prisões de concreto! ECA!!
E onde estava uma placa prévia avisando das condições da rodovia??? não, não tinha nenhuma, em toda a extensão da Ayrton Senna e da Carvalho Pinto, e nem na entrada da Tamoios havia nenhum aviso. Apenas mais 2 pontos de pedágios além do que já existia há 2 anos.
segunda eca: a obra que já dura mais de 1 ano está praticamente falindo com os comerciantes locais pois todos que tem conhecimento da obra não seguem mais por aquele caminho. A famosa lanchonete "Vaca Preta", que faz uma calabresa clássica, simplesmente vazia... os outros estabelecimentos então, às moscas, ninguém pensa nos trabalhadores que precisam destes empregos??

Claro que não, pois serão beneficiados com o "progresso"!!!!

Então várias coisas começaram a vir na minha cabeça, licitações, leilões, pedágios... dinheiro, dinheiro e mais dinheiro para aqueles que já tem muito!!! dinheiro de quem???? meu, seu, do coitado do trabalhador que perdeu seu emprego...
enfim, a eca final e apoteótica foi no km 60, INÍCIO DO TRECHO DE SERRA, FIM DA OBRA DE DUPLICAÇÃO!!!!
o que??????????????????????? pra que então???? ampliar 60km de estrada para todos afunilarem nos últimos e mais delicados 22 quilômetros??? quase saí do carro para vomitar!!!!
fiquei indignada!! não é possível eu pensava!!!!

mas daí claro que não é possível, pois precisamos de mais licitações, mais leilões, mais pedágios, mais dinheiro, e mais destruição da natureza!!!

veja bem, não sou contra o progresso, mas também não posso aceitá-lo a qualquer custo!

A Rodovia Tamoios é um patrimônio paulista, um patrimônio histórico e cultural, foi pavimentada em 1957 e teve melhorias nos anos 60 e 70, com o nosso dinheiro, e trouxe melhora de vida para a região. É uma excelente estrada, e nunca teve pedágios pois é nossa, não de nenhuma empresa privada.

Fazer uma obra que custa mais de R$500.000.000,00 com o nosso dinheiro para leiloar para uma empresa que terá uma concessão de utilização de 30 anos e ainda cobrará pedágio é um absurdo, uma afronta, um assalto a mão armada!! E não pára por aí, pois ainda terá o trecho da serra, com muito mais complicações pois de um lado está a montanha e do outro o penhasco!!!! Ou seja, muito mais dinheiro (já há estimativas de mais de R$2 bilhões) e destruição!


Praia Martins de Sá - Caraguatatuba
será que cabe mais alguém???

E não posso deixar de me perguntar: pra que??? o litoral paulista nem tem estrutura para mais turistas nas altas temporadas. Falta água, falta rede de saneamento adequada que não polua o mar e as águas, falta estrutura comercial, falta até espaço na areia e no mar!!!! Sobra pernilongos, baratas, borrachudos, filas, sujeiras, viroses e daí falta também atendimento de saúde!

E no final???? ECA!!!!!!!!!!!


É isso aí!!!! Viva o progresso!! Que tal duplicar também a Rio-Santos, a Mogi-Bertioga e trocar seus nomes para nomes de políticos e empresários sujos?? Eca!!!!!!!!!!!!

OBS: Segundo a Associação Brasileira do MP do Meio Ambiente, a obra gerará o maior desmatamento da Mata Atlântica, 370 mil metros!

14 de ago. de 2013

Dança do Ventre - A Beleza do Simples

A Dança do Ventre hoje conquistou todas as partes do mundo, e é executada por mulheres de todas as idades e etnias. Isso é maravilhoso, entretanto se quisermos ser fiéis à dança do ventre como tradição da cultura árabe precisamos tomar muito cuidado com o efeito “telefone sem fio”.

Sou uma apaixonada por esta arte e dedico muitas horas assistindo vídeos de bailarinas de diversas regiões do mundo e venho percebendo que cada vez mais esta dança tem se distanciado de sua essência. Cada vez mais a preocupação das bailarinas é em impressionar o público com sua qualidade técnica, agilidade, movimentos inusitados e beleza física. Muitas vezes observamos movimentos, passos e elementos que nunca fizeram parte da cultura árabe.


Sei que a arte não é estática, que a arte evolui, que cada bailarina pode e deve colocar a sua personalidade em sua dança. Sei que há uma grande diferença entre uma dança cênica e uma dança “feita em casa”, mas se começarmos a nos distanciar da essência da dança oriental, daí simplesmente deixa de ser...

E o que é essa essência?

Vou fazer uma analogia: A HISTÓRIA DO FEIJÃO

“Sabemos que o arroz com feijão é o prato que mais representa o povo brasileiro. Imagine então a seguinte situação:
Você aprende com sua mãe e avó como fazer o feijão. Você aprende que precisa usar o feijão carioca ou o jalo para fazer este prato típico. Aprende que é preciso deixa-lo de molho por algum tempo para poder cozinha-lo. E o principal, aprende que para temperá-lo basta sal e alho, e se quiser pode adicionar cebola e toucinho. O arroz deve ser o branco, também temperado com sal e cebola. Mas que todos estes simples ingredientes, feitos e adicionados na 
proporção e ordem certa vão proporcionar um prato de sabor maravilhoso e muito tradicional do Brasil.


Um chef de cozinha francês tem a oportunidade de experimentar esta receita, e resolve colocar no cardápio de seu restaurante na França. Mas ele acha muito simples, e na verdade, ele nem sabe muito bem todos os passos do processo pois ele só experimentou, mas adorou e quer muito fazer. Então ele compra um feijão na França que não é o carioquinha ou jalo pois lá não se encontra este tipo (isto é uma ficção, eu não sei se existe ou não Ok). Daí ele resolve incrementar o prato, ao invés do arroz branco, ele prepara um arroz tipo “a grega” e no feijão ele adiciona outros temperos, mostarda, salsinha, tomilho e pimenta rosa. Ele percebe que se deixar o feijão com caldo, a apresentação do prato não fica tão bonita, então ele deixa o feijão mais seco, e para enfeitar a iguaria e dar um toque especial ele coloca como acompanhamento cogumelos.
O prato faz um baita sucesso, o restaurante fica famoso por ter um prato brasileiro no cardápio.
Você vai morar na França e fica com saudade de comer feijão, daí as pessoas te indicam o tal restaurante. Você fica empolgadíssima, vai lá e pede o prato, e então, a decepção!! Você gostou da comida, o prato era gostoso, interessante, diferente, mas definitivamente NÃO ERA O FEIJÃO BRASILEIRO!!!”

Como você se sente? Frustrada, enganada, chateada, enfim cada pessoa vai reagir de uma forma, mas o importante é que você sabe que aquele prato não representa sua cultura nem suas tradições.

Quero apontar várias coisas neste texto:
1)      Se você não quer fazer da forma tradicional, tudo bem, só não venda seu produto como se fosse;
2)      Se você quer fazer o tradicional, se você quer aprender a essência da dança, beba da fonte,
3)      Ser simples não é ser ruim, ser simples não é fácil, ser simples tem suas qualidades, ser simples não é ser pouco,
4)      Os passos e movimentos tradicionais da dança do ventre não são muitos, mas saber coloca-los na hora certa, com a dinâmica certa, com a ginga certa é o mais importante, completamente conectada e entregue a música, aí está a grande questão. Ao invés de se dedicar um tempão para aprender o “passo da moda”, dedique-se mais em pesquisar sobre a cultura e a música oriental, mas sempre de fontes fidedignas, prefira sempre os originais, mas lembre-se, nem todo brasileiro sabe fazer feijão.

Muita gente diz que minha dança é simples, e honestamente não me ofendo com isso, pois esta é a essência da dança oriental. Eu como bailarina de dança oriental tenho que me preocupar em traduzir em meu corpo a música de forma prazerosa e de forma que o público possa entender. A impressão de ser simples se deve pelo fato de ser completamente entendível!! Você entendeu a minha dança completamente, ótimo, esta era minha intenção, é sinal que eu consegui te passar uma mensagem claramente, e com muita técnica sim, pois senão a geometria e harmonia dos meus movimentos não seriam perceptíveis.
A partir do momento que o público não consegue acompanhar o que eu faço e que eu tenho que pensar para fazer, deixou de ser dança oriental, pois quando isso acontece há uma desconexão do público e da bailarina com a música, e dança e música na cultura oriental é uma coisa única, somos um uníssono, todos os instrumentos produzem um único som, não há harmônicos na música árabe, um dos pilares da música árabe é sua forma melódica e o meu corpo deve ser esta melodia de forma plena.
Eu como bailarina devo ser a música, sou um instrumento a mais na orquestra, a música me rege, se não há mudança de frase musical, não há mudança de passos e movimentos, se não há floreios na melodia, não haverá floreios em meu corpo. Eu devo seguir a música em tudo, em suas intenções, dinâmicas, energia, e isto não quer dizer seguir cada “plin” do qanoum, isto quer dizer estar entregue totalmente deixando o som reverberar no corpo.
A música árabe é cíclica, sendo assim a dança também deve ser, ou seja, não há nada de errado em repetir o mesmo movimento se a música o solicita. Esta circularidade é o que proporciona o êxtase, o prazer, a viagem do público em seu corpo, se mudarmos de movimento a cada segundo, não se estabelece a conexão.
Foto: Flávia Pastorelli/ Bailarina: Cristina Antoniadis

A essência da dança oriental está no prazer sentido pela bailarina e compartilhado com o público, e para haver prazer é preciso que o corpo esteja relaxado e desconectado com o pensamento de querer impressionar!
Quanto mais dançamos a mesma música, mais íntima dela nos tornamos, e mais podemos explorar de forma natural suas minúcias.
Portanto, se você quer dançar com estilo realmente árabe, pense em tudo isso!! Abaixo, alguns vídeos para ilustrar e frases para refletir.

“A Simplicidade é o último grau da sofisticação” – Leonardo da Vinci

“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho” – Clarice Lispector

“O assunto mais importante do mundo pode ser simplificado até o ponto em que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo. Isso é, ou deveria ser, a mais elevada forma de arte.” – Charles Chaplin

“A Simplicidade é o último degrau da sabedoria.” – Khalil Gibran


Serena Ramzy

Cristina Antoniadis

Fifi Abdo

8 de out. de 2012

"Dança do Ventre Turca"


Vem aí, a nova novela da Globo: Salve Jorge, cenário Brasil e Turquia, com todos os ingredientes que a autora Glória Peres usa em suas receitas, e um deles, a dança.

O alvoroço no mundo da dança do ventre já começa, as alunas já começam a questionar como é o estilo turco de dança do ventre, quais são as diferenças e as características marcantes.
Cléo Pires e a "Dança com 7 Véus"

Uma certa angústia já se inicia, sabemos que tudo que se relaciona a nossa amada dança quando vai parar na grande mídia, geralmente, é de forma distorcida, que temos um trabalho redobrado para desmistificar e desfazer os estereótipos criados, mas vamos pensar pelo lado bom da coisa, não é sempre que ganhamos uma divulgação gratuita, e que apesar de muita gente começar a fazer aulas por farra do momento (como ocorreu na época do “Clone”), muitas se apaixonam e acabam levando a sério, ficando e se transformando em lindas bailarinas!

Entretanto precisamos estar preparadas para esta avalanche, e pensando nisso resolvi compartilhar o que eu conheço e posso sobre este assunto.


E antes que perguntem ou indaguem o por que de eu ter algum conhecimento sobre o assunto, já me anteciparei: conheço o assunto pois sou de origem grega e estudo as danças gregas desde os 7 anos de idade!! E então virá a grande questão: O que as danças gregas tem haver com isso??? daí eu respondo: quase TUDOOOOOO.

Vamos entender isso!


Gengis Khan
Para entendermos os aspectos da dança do ventre turca, precisamos primeiro entender o que é a Turquia. A Turquia é um país, nação, recente, nomeada república Turca em 1922. Sua origem deriva do Império Otomano. Os turcos originais eram povos de essência guerreira, vindos do Turcomenistão, norte da Mongólia (lembrem das histórias de Gengis Khan), e após processos de conquistas territoriais e invasões que iniciaram por volta do século XI, principalmente na região da Anatólia (território atual da Turquia que até então era o Império Bizantino herdeiro da civilização helênica) se deu origem aos turcos otomanos (islâmicos).


Após a tomada de Constantinopla em 1453 (atual Istambul), o Império Otomano (turcos otomanos) teve seu apogeu entre os séculos XV e o XVIII, e sua área territorial de dominação política e militar abrangia o sudeste europeu, Ásia Menor, países árabes, costa mediterrânea do norte da África e costa do mar Cáspio.

Até a constituição do Estado Turco em 1922, a região da Anatólia era fortemente povoada por gregos (helênicos), os quais ali estavam desde a antiguidade (1200 ac) e tinham suas culturas fortemente estabelecidas. Por receios políticos e religiosos, após este período iniciou nesta região uma forte perseguição aos gregos (que eram cristãos ortodoxos), e iniciaram grandes genocídios e massacres. Estima-se que foram expulsos a partir de então cerca de 2.000.000 (dois milhões) de gregos (minha avó paterna foi um deles), e os que permaneceram na região foram obrigados a se converter ao islamismo e mudaram seus nomes para não morrerem ou serem perseguidos, entretanto permaneceram com suas tradições e costumes.

Santa Sofia (Istambul/Turquia) - Catedral Grega Bizantina, construída
no século VI, transformada em mesquita pelos turcos otomanos em
1453 até 1931. Em 1935 transformou-se em museu. Atrás o estreito de
Bósforo,canal que separa a Ásia da Europa.

A Turquia sucedeu o Império Otomano, que por sua vez sucedeu o apogeu cultural do Império Árabe, um período de grande produção cultural chamado a idade do ouro, ocorrido entre os séculos VII e XII, e também o Império Bizantino, cuja cultura era a intersecção entre as culturas gregas da antiguidade clássica e as culturas orientais. Aspectos da cultura musical e da dança destes povos foram absorvidos pelos turcos e esse grande caldeirão que inclui em boa parte a cultura helênica e a árabe e também aspectos das culturas persas e mongóis deram origem ao que denominamos hoje de cultura turca.

Acampamento cigano na cidade de Esmirna/Turquia


Outro aspecto que influencia bastante a cultura turca atual é a forte concentração de ciganos (romani), provavelmente a maior do mundo estimada em cerca de 5.000.000, e assim como no Oriente Médio, são estes ciganos os grandes responsáveis pelas manifestações artísticas de música e dança nas tavernas, festas, casamentos e feiras de rua agregando a cultura local a suas tradições.



Após dito tudo isto, conseguimos vislumbrar o que seria a dança do ventre turca. Sabemos que quando os turcos ali chegaram esta dança já existia, ou seja, não é uma dança de origem turca, mas sim uma dança que foi absorvida e sofreu influências múltiplas.
Estátua grega encontrada em Esmirna
Dançarina velada

No estilo praticado pelas bailarinas turcas (que em sua maioria tem origem cigana pois há um grande preconceito em volta da dança assim como em todo o Oriente Médio), podemos observar muitos aspectos da dança do ventre libanesa e da dança do ventre grega, e alguma influência das danças persas e dos rituais sufis. Algumas bailarinas mesclam movimentos das danças ciganas e também de danças folclóricas, principalmente o karsilamas, que tem origem na Trácia (em breve postarei um artigo específico sobre esta dança).

Do estilo grego observamos que foi herdado, além dos ritmos (chiftetelis, karsilamas e outros), movimentos pélvicos, postura e eixo dos quadris a frente com um leve cambrê (que também aparece no estilo libanês), redondos e oitos horizontais grandes, cambrês exagerados, muito trabalho de chão e a forte presença dos snujs (zília) também presente entre os ciganos.

Do estilo libanês, os grandes deslocamentos e giros, a acentuação para cima dos movimentos (que também aparece no estilo grego) e nos shows “bellydance”, os trajes mais modernos e ousados bem como o uso de sapatos de salto.

Do cigano podemos observar a manipulação das saias, os “puladinhos” (que também tem uma influência do karsilamas grego, que por sua vez tem influência cigana), os giros do tipo “helicóptero”, as acrobacias (queda turca, contorcionismos e equilibrismo) e muito de suas danças populares.

Das danças persas podemos notar os gestuais e influências nos trajes mais tradicionais (não para shows “bellydance”), e também o giro oriental o qual pode ser observado nos rituais sufis.

E da herança da sua tradição militar e guerreira, podemos observar uma grande eficiência técnica, precisão e bailarinos atléticos (principalmente nos grupos folclóricos), o que acredito ser uma das características mais marcantes da dança turca atual.

Enfim, percebam que estas influências e características são circulares e uma cultura influencia a outra e assim continua, e este intercâmbio é maravilhoso pois enriquece a nossa dança de maneira infinita.

Algo muito importante a salientar é que a dança do ventre para os turcos não é algo enraizado em suas tradições diárias assim como vemos a “raksa” nos países árabes, o “shaabi” e o “baladi” no Egito e o “tsiftetelis” na Grécia, ela é utilizada mais como show, algo para ser mostrado, atração de turistas do que como entretenimento local. Para elucidar melhor o que estou dizendo, transcrevo aqui uma das impressões que a bailarina Brysa Mahaila relata em seu blog ao retornar de sua viagem à Turquia:
“Os turcos vêem a dança do ventre apenas como um espetáculo de variedade. As bailarinas não se preocupam com a arte e a qualidade da dança, infelizmente lá a dança é vista como um show para divertir o público e não como uma arte de exaltação a sensibilidade e ao feminino.” Relata Brysa sobre os espetáculos de dança do ventre na Turquia.

Enfim, de qualquer forma existem bailarinas turcas maravilhosas, que são grande fonte de estudo e que podemos nos inspirar para conhecer um pouco mais deste estilo, segue um vídeo da minha preferida, Nesrin Topkapi:

 Outros aspectos culturais e curiosidades:
1)      Não confundam um árabe com um turco. Isso acontece muito no Brasil por conta das primeiras imigrações de povos árabes que chegavam com passaportes turcos devido ao período da dominação otomana. O turco fala o idioma turco, tem origem étnica diferente e possui tradições próprias.
2)      A palavra Istambul deriva do termo grego “I Poli”, ou seja “a cidade”. Assim era denominada coloquialmente pois era lá o centro comercial, artístico e cultural da região, ou seja, onde as coisas aconteciam e havia um intercâmbio cultural forte. Outra cidade muito importante para o desenvolvimento das artes é Esmirna, também um pólo cultural.
3)      Assim como a dança, a música turca também é um grande caldeirão de misturas culturais, mas os instrumentos utilizados são os mesmos da música árabe clássica (e grega também), o alaúde, o qanoun, a nay, o derbak e a presença do saz (uma espécie de bouzouki). A nomenclatura dos ritmos também é a mesma e a qualidade melódica da música oriental permanece (ou seja, uma música modal, e não tonal).
4)      O olho turco (amuleto), é um grande exemplo do intercâmbio cultural e absorção das culturas locais pelos turcos. Sua origem é egípcia (o olho de hórus) e foi adotado pelos gregos que começaram a utilizar um olho azul como amuleto para espantar “mau olhado”, nos países árabes também é costume utilizar uma pedra azul para este fim, e hoje faz parte da cultura turca.


Se você quiser saber mais sobre o “Tsiftetelis” (estilo grego de dança do ventre) e também entender um pouco melhor essa conversa cultural entre gregos e turcos, sugiro a leitura deste artigo: clique aqui

Enfim, espero ter contribuído para que a nossa classe de bailarinas e apaixonados pela dança oriental esteja mais preparada para a próxima avalanche.

Na época da novela “O Clone”, quem estava neste meio sabe bem do que eu estou falando quanto às distorções, mas também sabe que vinha muita aluna querendo fazer aula e perguntando:
“Eu vou dançar que nem a Jade (Giovana Antonelli)?, daí eu vou citar o que uma colega de profissão, a Juliana Leme, disse e que eu particularmente amei: “Não querida, vc não vai dançar que nem a Jade, vc vai dançar melhor!”

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Um grande abraço!!
Até a próxima